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Archive for the ‘Governo Dilma’ Category

Talvez hoje surja algum “barulho” que diminua o “silêncio mais intrigante da República em muitos anos”, como disse Fernando Barros e Silva, da Folha. Mas, quais as expectativas sobre isto? Palocci, de fato, ainda tem chances mesmo de continuar no governo? Ele está visivelmente desprestigiado. O PT e a presidente sentiram que não dá para segurá-lo por muito mais tempo. Tentaram, alegaram golpismo, interesses eleitorais, enfim, as defesas de sempre, mas quem está mesmo disposto a bancar Palocci que, em termos de denúncias e acusações, já deixou de ser “primário” a muito tempo?

O silêncio de Palocci é o exemplo mais claro de um silêncio perturbador, que incomoda, pois sua expectativa é que triunfe a mentira com o apoio do tempo. Esse é o mais perturbador dos silêncios, aquele que quer nos fazer de agentes absolutamente passivos de uma ação que diretamente nos atinge: a corrupção.

De fato, o que vai sobrar disso é mais um troféu na sala de escândalos do PT e da República brasileira, e um governo cada vez mais acomodado ao lado do PMDB. E olha que já foi o tempo que um partido mais à esquerda podia criticar ideológica ou moralmente qualquer partido de direita. O que está acontecendo é simplesmente uma maior acomodação do PT ao PMDB.

Ainda sobre Palocci, o que há para explicar? Se, de fato, as acusações fossem “golpistas” teria sido muito fácil vir à imprensa e desmascarar os golpistas, mas não, não era tão fácil assim. Talvez Palocci, de fato, só fale buscando minimizar o estrago já feito, esperando que, por um milagre, mais uma vez alguém venha em seu socorro, como Lula o fez em 2005, ainda na crise do mensalão. Mas, Lula não está mais no poder, e Dilma, nem de longe possui o carisma de Lula para brecar uma acusação como a que Palocci está sofrendo. Além disso, se falar, é provável que seja em entrevista a algum jornal na TV, o que reduz em muito as chances de ser eficientemente questionado.

Ele se tornou desnecessário. A oposição também não o vê mais como interlocutor necessário junto ao governo para o resguardo da política econômica. Palocci, então, está entregue à sua própria sorte e, por isso, não sobreviverá politicamente nesta conjuntura. Dilma não lhe estenderá a mão e, mesmo se o fizer, não terá tanto impacto positivo. Mesmo porque muito mais importante que assegurar Palocci é tentar alguma ordem na base aliada, que ameaça, constantemente, desmoronar.

Onde está a força do “governismo”? Eu mesmo cheguei a acreditar que Dilma teria a seu favor este movimento que vinha se desenhando desde os fins da eleição de 2010. Talvez, passada esta conjuntura crítica, o governismo venha com força novamente. Mas, ainda assim, o PT e Dilma terão capacidade e competência para montar mesmo uma base aliada? E, que estratégias e recursos utilizarão para isso?

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Independente do que venha a acontecer com Palocci, que pode muito bem ser… nada, o que sobra destes momentos críticos é sempre a revelação de uma estremecida relação entre o Executivo e o Legislativo federais. Parece não ter sido outra, desde a redemocratização, a relação entre os dois poderes marcada por trocas fisiológicas que, alguns teóricos denominaram de Presidencialismo de Coalizão. Ou seja, incapaz de conseguir maiorias suficientes, o executivo se vê obrigado a montar bases de apoio através de coalizões partidárias no Congresso Nacional.

O caso Palocci não fugirá à regra. A questão é que, agora, o principal “adversário” está na vice-presidência, o PMDB. Desde o episódio do mensalão, quando Lula buscou apoio no PMDB e encontrou em Sarney seu principal aliado, que o PT caminha cada vez mais para uma espécie de “rendição” ao aliado.

Antes, no início do governo Lula a estratégia montada por José Dirceu foi a de fragmentar os partidos no Congresso a ponto de criar uma relação muito perigosa com os pequenos partidos. Uma relação que passava mais pela dependência pessoal de cada parlamentar que por acordos de lideranças. A situação levou ao escândalo do mensalão. Uma enorme pretensão do PT que, incapaz de constituir alianças, quis forçá-las na marra, ou sob a pressão de cargos e dinheiro.

Após esta experiência, passou-se a outra forma de relação. Deixou-se os inúmeros pequenos partidos em segundo lugar e optou-se por uma relação mais estreita com um grande partido, no caso o PMDB. O resultado concreto foi a divisão do governo.

Mas, como o PT ainda não aprendeu a dividir governo terá sempre uma conta a pagar. E, passada a lua de mel do início do governo Dilma, esta conta já vem sendo cobrada e o “preço” aumenta a cada crise de corrupção.

Não é só o Palocci que tem seus rendimentos supervalorizados no mercado, o PMDB se valoriza a cada escândalo do PT. A bola da vez agora era frear qualquer investigação no Congresso e o PMDB mostrou-se essencial para isto. Não sem rusgas, evidentemente.

Fica claro que estamos lidando com o pior dos mundos. Um presidencialismo fraco, impotente, que só negocia sob acordos fisiológicos. E, de outro lado, um Congresso que parece só funcionar à base de cargos e liberação de verbas.

Como venho insistindo, Sarney pode ter ampla rejeição, e pode até ser visto como o exemplar mais claro da política fisiológica e clientelista. Mas é desta água que o PT bebe. E por que? Simplesmente pelo fato de que se Sarney é rejeitado pela opinião pública, ele é amplamente operacional, funcional, dentro do Congresso. É uma peça chave que manobra, como ninguém, os meandros daquela instituição. Uma espécie de maquinista que o PT não pode dispensar, principalmente agora que todo seu capital ético já foi pro espaço mesmo. A questão é manter-se no poder.

Precisamos reinventar lideranças. Lula e o PT já não são novidade, nem mesmo oferecem qualquer esperança. Mas, não se trata simplesmente de novidades na política, se trata, principalmente, de incrementar o poder da opinião pública para que estas novas lideranças venham a sentir certo constrangimento diante de possíveis ilícitos. Não há mesmo muito o que fazer… mas, viver de esperança ninguém vive. É preciso sempre… agir.

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O dia começa com o anúncio de que o Ministério Público Federal decidiu investigar os ganhos de Palocci. De acordo com o Procurador da República José Rocha Júnior, não foram apresentados PUBLICAMENTE justificativas que permitam aferir a compatibilidade dos serviços prestados com os vultosos valores recebidos (Folha, 27/05). Tal posição contrasta com as declarações da presidente Dilma de que Palocci JÁ estaria dando as devidas declarações. Há um conflito aqui, o que para a presidente é razoável, para o Ministério Público não é, ou seja, a pendenga se dá em torno do tema da “publicização”. Palocci precisa vir à público. É na esfera pública que a democracia se consolida. É na esfera pública que o homem público, obrigatoriamente, presta contas de suas atividades. Portanto, dizer que, por estar conversando com senadores, ou seus partidários, Palocci já estaria fornecendo explicações não convence a ninguém.

O fato é que este é o primeiro constrangimento por que passa Dilma. E, ontem, assistindo às suas declarações na TV percebi o quanto aquele semblante tranquilo do início do governo e da fase “Ana Maria Braga” havia desaparecido. Estava irritada, impaciente. Seu tom de voz era a de quem não estava ali para ser contestada, ou seja, esta é a Dilma que todos sempre conheceram e que, na hora que a corda estica ela se enfurece. Razoável, na posição que ela ocupa.

Ainda em sua declaração, nos disse esperar que a questão não seja politizada, e usou como exemplo as ligações entre os valores liberados pela Receita Federal para a W Torre e as contribuições desta para sua campanha presidencial. Ora, toda esta ligação pode até se revelar frágil, mas que é insinuante é. Como não ficar atento e com os olhos bem abertos para uma enorme liberação de recursos seguida de uma bela doação? É mais do que natural querer explicações.

E por que o governo não gosta de explicar-se, se é natural dos deveres do homem público essa obrigação? Rola pelo Brasil a algum tempo a ideia de que qualquer crítica ou denúncia que se faça ao governo seja uma “conspiração preconceituosa e eleitoreira das elites oposicionistas” (Ufa!!… acho que resumi em poucas palavras).

Isso é um sinal de arrogância de quem está no poder. Um sinal de prepotência por imaginar ocupar uma posição inabalável e acima das leis. Poderia até dizer que revela um tremendo “elitismo” (quando busca privilégios por acreditar-se acima da lei), um “golpismo” (quando desmerece o contraditório que é típico da democracia) e “eleitoreira” (quando revela-se oportunista para a manutenção no poder).

Ou seja, é tão fácil voltar as acusações do governo contra si mesmo. Só é preciso um pouco de atenção e disposição para levar às últimas consequências na defesa dos espaços democráticos.

O que houve com o PT em sua história? Onde foi parar todo aquele suposto capital ético? O que o poder significou ao PT? Não era para o PT ser igual a todo mundo, mas se tornou, e talvez pior, pois não só não se constrange com as críticas, como as desqualifica violentamente. Isso é uma atitude muito perigosa à democracia. O PT não se sente submetido às regras, aos deveres, se sente melhor, se sente mais capaz.

Por que? Seria o caso de se analisar o quanto existe de ressentimento aí, ou se é só oportunismo mesmo. O fato é que, se a sociedade brasileira quiser avançar, vai ter que fazer isso independente de grande parte de sua classe política e partidária. Vai ter que manter-se bem forte nas redes sociais, manter-se permanentemente conectada e de olho no cotidiano do poder.

O crescimento econômico e a ascensão de determinados grupos sociais não pode servir de pretexto, nem para governantes sepultarem a democracia, nem para se deixar de lado a atenção com a política.

E a bola da vez é o PT. Tem que ser observado em detalhes. Principalmente na sua capacidade discursiva, pois é na manipulação de um susposto capital ético somado ao crescimento econômico que encontra forças para negar vários de seus deslizes na condução dos negócios públicos. E isso tem sido tolerado. Mas, até quando?

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Dilma foi escolhida a dedo por Lula para disputar a eleição. Dilma deve sua vitória à capacidade que Lula teve de, por cima de todas as regras, fazer a campanha eleitoral de 2010. Mas, ainda assim, muitos acreditavam, eu inclusive, que neste início de governo Dilma parecia estar mostrando certa autonomia, desprendimento, luz própria. Tentou até criar um estilo diferente, mais afável, cordial. Para mostrar-se mais sensível e humana foi até no programa de Ana Maria Braga. Enquanto isso, Lula dedicava-se ao seu primeiro milhão de reais em poucas semanas dando umas 4 palestras para grandes empresas.

Quem diria que, em tão pouco tempo, todas essas especulações de uma “vida própria” poderiam cair por terra. Ao sinal da primeira crise mais séria, no caso, envolvendo Palocci, Dilma “pede arrego” e Lula volta à tona. Na verdade, eu mesmo já havia comentado a um tempo atrás que não havia mesmo um “pós-Lula” e que nada mais certo que ele volta a disputar a presidência já em 2014. Mas, foi tudo muito mais rápido que imaginei.

Dilma está revelando muito rapidamente sua face mais frágil. Não tem vida própria, mas não é só ela. O PT também não consegue mais andar sem Lula. Se atrapalha, não sabe negociar, não tem faro político. Enfim, Dilma e PT estão na absoluta dependência de seu “guru”.

Lula volta com suas velhas e surradas metáforas, mas elas ainda funcionam e vão funcionar sempre que a imprensa estiver disposta a comprá-las e não denunciá-las. Exemplo: “todos sabiam que Palocci era o Pelé da economia”. Ou seja, tudo muito simples, como o bom e velho Lula sempre fez no governo. Para a imprensa acreditar? Não. Mas, sempre jogando para uma enorme platéia que não está nem um pouco afim de debater, principalmente se for assunto da política.

O fato é que Lula está cada vez mais de volta. E está ocupando, informalmente, o seu lugar de presidente. Comanda reuniões, tenta negociar com setores estratégicos, faz recomendações, etc. A principal? Tirem o “kit-gay” para que não ocorra riscos de investigação contra Palocci. Foi mais uma concessão ao PMDB. Mas, foi mesmo só mais uma concessão? Se assim o fosse seria normal numa democracia. O problema é que essas “concessões” sempre ocorrem para evitar alguma “investigação”.

Bem, Dilma parece mesmo só estar esquentando o banco. Ela vai ter que se revirar para provar o contrário. E, agora que Lula colocou a cabeça de fora, quem vai lembrá-lo que não é mais presidente?

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As denúncias contra Palocci parecem apenas confirmar que existe, de fato, um monopólio da política em marcha desde os tempos Lula. Esse monopólio sustenta-se num projeto de dominação sem oposição, ou com uma existência desqualificada.

Chegando ao poder como a expressão da esperança, logo se percebeu que os passos dados por Lula eram expressão, de fato, de um ressentimento. Apoiou-se numa história pessoal trágica (como se de tragédias não fosse feita a vida de cada brasileiro), alardeou que ninguém era mais ético que ele (esquecendo-se que esse é o país do “jeitinho”) e colocou-se como o “protetor” de milhões de brasileiros, revivendo demagogias e populismos.

O PT, cuja história esteve sempre marcada por discussões internas fortes, logo após o escândalo do mensalão, sucumbiu ao poder irresistível de Lula e passou a orbitar em torno dele sem qualquer questionamento. Hoje, o que se vê é um PT que não ousa discutir, pois o projeto de poder e sua continuidade se colocaram sobre qualquer princípio partidário.

Desde o mensalão que houve uma desqualificação absoluta de toda crítica externa, uma desmoralização de toda tentativa da imprensa atuar. O PT quer governar sem oposição, tratando a tudo e a todos como “conspiradores”, “elitistas” (como se já não fosse o governo com maior transferência de renda para os setores financeiros), “preconceituosos” – traços claros de uma política de ressentimento, bem típica daqueles que adotam a “covardia moral” como estratégia de sobrevivência, sempre cobrando ao outro por seu infortúnio, gerando uma dívida que jamais será paga.

Isso não é cidadania.

Ontem, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, resumiu o escândalo que atinge o chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, como “palavras ao vento“. Isso me fez lembrar que em 2005, no auge das denúncias contra o mensalão, Zé Eduardo Cardozo foi o primeiro a sustentar a tese do “caixa dois”, desviando a atenção do tema “corrupção”. No dia seguinte, Delúbio e Valério foram à imprensa para dizer que o que tinham feito era caixa dois e mais um dia depois Lula deu aquela entrevista em Paris confirmando que todo mundo faz a mesma coisa.

Por seu lado, José Dirceu diz tratar-se de uma “crise forjada“, no mesmo estilo que, quando também no mensalão, definiu as críticas como “golpismo”. E aí, logo em seguida, vem outros membros partidários e dizem em coro: “é tudo um jogo da oposição“, mas, que oposição? A mesma que praticamente recebeu Dilma de braços abertos?

Houve um dia em que tive profundas simpatias por Lula e pelo PT, mas eles abusaram e hoje me tratam como um imbecil, um idiota, como se essas justificativas fossem suficientes. Só estão se comportando de uma maneira a acabar definitivamente com o “jogo político”.

Onde está Lula? Por que não se pronuncia? Daqui a algum tempo, quando a crise passar ele surgirá novamente. Não sabe o que dizer. Talvez só saiba dar palestras que custam centenas de milhares de dólares.

Quais foram os teus clientes Palocci?

Quantos funcionários tem a tua empresa?

Em 2005, a Folha de S. Paulo denunciava o comportamento de Lula como delirante, fantasioso, dissociado. O mesmo ocorre agora (talvez menos com Dilma, que optou pelo silêncio) com os petistas. eles aprenderam bem o que o chefe ensinou: danem-se os fatos… vale a palavra, repetida mil vezes.

Este monopólio da política é “primo” do chavismo. Mas, ainda é um primo distante. Desde que a oposição, cada vez mais, ocupe os espaços de discussão com um discurso forte, sem temer derrotas, sem temer o enfrentamento. É preciso restaurar o “jogo político”, do contrário só restará mesmo este “monopólio”, sustentado num baita ressentimento que nada tem de cidadão, e num desejo de poder irrefreável.

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A presidente Dilma parece estar buscando um novo modelo de relacionamento com o Congresso. O ajuste tem um objetivo claro: facilitar a aprovação do Orçamento pelo Legislativo. O que o governo propõe é, embora ocorra uma redução dos atuais R$ 13 milhões para cerca de R$ 6 a 8 milhões no limite para as emendas parlamentares, haverá uma liberação rápida pelo Executivo, evitando-se postergar para os anos seguintes a execução de despesas (“restos a pagar”). Tradicionalmente, Executivo e Legislativo sempre se utilizaram desta questão financeira para barganhar apoio político.

É claro que o volume de recursos implicado é pequeno, mas o impacto é forte na questão do relacionamento entre os dois poderes. Basta lembrar o custo político causado pela opção do “modelo mensalão” implementado na primeira metade do primeiro mandato do ex-presidente Lula. A Folha trouxe o gráfico abaixo para mostrar a evolução recente dos volumes das cotas e das execuções de emendas parlamentares.

Na matéria, há uma indicação de que teria havido um crescimento significativo da cota de recursos parlamentares, e sua execução, após a crise do  mensalão, o que evidenciaria que o ex-presidente Lula teria tentado, dessa forma, evitar confrontos e atenuar os impactos da crise do mensalão. Teria sido uma forma de recompor a base aliada, destroçada já antes do estouro do escândalo de corrupção. De fato, uma afirmação desse tipo exigiria uma análise retrospectiva maior. O que se pode evidenciar é o seguinte: Aumentos significativos ocorreram em 2005 e 2006, justamente nos piores momentos da crise: houve um aumento de 40% dos volumes de 2005 comparados ao de 2004; e de 42% no volume de 2006 comparado ao de 2005. Tais crescimentos se destacam em relação aos demais anos. Isso é fato, e talvez tivesse como destino certo “responder” à crise. Resta, entretanto, a necessidade de uma melhor análise para relacionar, com mais segurança, os dois fatos: liberação de verbas e tentativa de “frear” o mensalão.

Mas, outra questão se destaca neste fato. Dilma está vivendo uma situação bastante singular na relação Executivo-Legislativo. De um lado, possui uma maioria folgada, de outro, a oposição, além de minoritária, está desarticulada, desunida e, portanto, cabe observar seu poder de obstruir votações. Essa situação tem favorecido o governo neste início de mandato. Ou seja, uma situação muito propícia para o renascimento do “rolo compressor“. É neste contexto que Dilma está “negociando” a redução do valor das cotas parlamentares.

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Em entrevista (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po0404201111.htm) o filósofo Marcos Nobre, da Universidade de Campinas, fala de uma “peemedebização” estaria em andamento no país, ou seja, algo que combina “adesismo” e “lógica do veto”, onde fazer política significa mais vetar que formular propostas.

O filósofo citou como exemplos desse processo a criação do PSD e a decisão do STF sobre a Lei da Ficha Limpa, tudo fruto de uma “cultura política peemedebizada”, uma cultura política que evita o confronto aberto e opera com uma lógica de veto… Não há um discurso positivo, não há uma tentativa de formar maioria e partir para o confronto. O que há é o veto e a tentativa de contornar os vetos. Há um bloqueio das discussões públicas que dissocia a política da sociedade. Trata-se de um modelo que se reforçou em muito após o mensalão.

Qual a relação com o mensalão? Com a crise, PT e PSDB perderam consistência após Lula ter se afastado do modelo polarizado em prol de um centro difuso. A diminuição do confronto permitiu que a lógica do peemedebismo retomasse um papel central. O fim da polarização é a vitória do peemedebismoO problema de Dilma é que ela recebeu um passivo político quase inadministrável… Ela recebeu uma quantidade enorme de acordos feitos por Lula, e todos muito generosos. São acordos com centrais sindicais, partidos, empresários, mercado etc. Mas Dilma não tem como manter todos. Há um limiteSe todo mundo está dentro e se todo mundo pode vetar propostas, o resultado é a paralisia.

E qual a solução para Dilma? Ela terá que mostrar que não há espaço para todo mundo e negociar acordos a um preço mais baixo. Dilma tem um “excesso de adesão” e isso é um fator limitador para os interesses de Kassab e do PSD, maior  expressão do peemedebismo. É a banalização da política. É um partido com discurso anódino, sem consistência, que gosta de se afirmar sem posição ideológica definida.

Uma boa questão, nesse momento, seria: Quais as condições e possibilidades de uma afirmação da oposição no cenário político? O primeiro passo é a constituição de um discurso. E isso exigirá uma leitura muito “fina” da realidade, pouco apegada aos fatos superficiais e episódicos e com mais capacidade de enxergar aquelas limitações que estão ocorrendo por baixo e que, mais à frente, serão a marca da gestão de Dilma. Se a oposição imagina que poderá ir se firmando em torno dos fatos criados pelo governo vai dar com os burros n’água. Uma leitura fina da realidade e um discurso consistente podem ser fundamentais para o médio prazo. 2012 está bem perto para já ir testando algo, mas para isso, é preciso começar. Não podemos esquecer que esse processo de peemedebização é fruto de um movimento feito por Lula no sentido do centro político, mas também é reflexo de uma descaracterização maciça do conteúdo da oposição no país.

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Matéria da Folha, de hoje (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po0204201108.htm), afirma que os Ministros do TSE se surpreenderam com a intenção do PT e outros partidos da base aliada em limitar o poder a Justiça Eleitoral. A matéria apurou que a justificativa da base governista é que o TSE não estaria limitando-se a administrar as eleições com base na legislação em vigor, e sim “extrapolando” suas funções e decidindo sobre temas que não lhe dizem respeito (coligações, dívidas de campanha, propaganda, fidelidade, etc.). É fato que isso acontece, mas o que me chama a atenção é que sempre que isso acontece é porque “algo” deixou de ser feito pelo Congresso Nacional.

Talvez por isto o TSE não aceite a acusação dizendo que, em algumas oportunidades, o Congresso toma decisões no “calor das emoções” deixando muitos pontos omissos sobre os quais o tribunal não pode deixar de se posicionar quando questionado. O que o TSE aponto também é fato, ou seja, como no exemplo da Reforma Política, o Congresso nunca faz o dever de casa e vai atuando de forma oportunista a cada véspera de eleição. O TSE ainda diz que, se em alguma decisão do tribunal há “extravasamento”, o próprio sistema se encarrega de corrigir, como no recente caso do STF e a questão da “ficha limpa”.

Mas, por que o PT e a base aliada estão preocupados com esta questão? Isso sim merece uma boa atenção. Se for para o bem da relação entre os poderes, qual é então a posição do PT e da base aliada quanto à Reforma Política? Ou se trata apenas de um desejo de “calar” o TSE? Teria algum interesse mais forte do Executivo nesta questão? É preciso ficar atento a isto.

Ora, se o TSE “extravasa” em algumas questões cabe questionar o porque desta atitude. Estaria o Congresso, como dissemos, fazendo sua parte? E, mais ainda, por outro lado, esse “extravasamento” é uma oportunidade do tribunal mostrar vitalidade, tentando ir ao encontro da realidade, o que é uma atitude louvável, quando o Congresso se mostra tomado pelo oportunismo.

O problema é que o Congresso, o Legislativo como um todo, que teria este poder de estar mais próximo das mudanças na sociedade se encastela em seus interesses corporativos e cria um “tempo de ação e decisão” arrastado, repleto de lacunas, onde tudo passa a ser preenchido por interesses e alianças políticas não muito claras. Existe melhor exemplo que o da própria Reforma Política? Não defendo que o Judiciário interfira nesta questão, mas até quando o Congresso vai tratar estas questões como se fossem apenas para a defesa de interesses partidários específicos, sem pensar no sistema político como um todo? Bem, como não acredito em uma solução assim, o jeito é deixar que os “extravasamentos” ocorram, pois deles, certamente, virão debates.

A democracia se define bem pela separação entre os Poderes, mas sua substância não está nas “rígidas fronteiras” que bem separam os poderes, e sim, justamente, na “fluidez” dessas fronteiras, permitindo o livre debates, avanços, “extravasamentos”, enfim, um sistema de check and balances. É nesse terreno escorregadio que a democracia vai se firmando. Querer estabelecer uma rigidez nas fronteiras me parece de um oportunismo governista sem tamanho. O que o PT quer com esta discussão? É preciso que fique mais claro.

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Dados de pesquisa CNI/Ibope e divulgados agora a pouco pelo UOL, apontam a presidente Dilma em franco crescimento de popularidade (http://noticias.uol.com.br/politica/2011/04/01/dilma-supera-lula-e-fhc-em-aprovacao-de-inicio-de-governo-diz-cniibope.jhtm), superando ex-presidentes numa comparação com o mesmo período. Ela teria 56% de ótimo e bom (em 1999 Fernando Henrique tinha 41% e Lula, em 2003 tinha 51%).

É claro que, em tais dados, está presente todo o clima positivo do país, que pode ser visto como uma herança do governo anterior, mas a cada momento que passa Dilma vai tendo maior responsabilidade sobre sua própria popularidade, e o governo Lula vai se tornando um “ex-governo”.

Para o gerente executivo da CNI, Renato da Fonseca, o índice de aprovação de Dilma se deveria ao seu “bom relacionamento” com Lula. Não sei exatamente o quanto esta afirmação reflete a realidade, pois embora não tenha surgido nenhuma rusga entre os dois, Dilma se posicionou de forma muito específica em várias situações. O que me parece mesmo é que a presidente está ganhando personalidade, e não por estar colada em Lula, justamente o contrário: está ganhando personalidade…própria.

Na falta de mais dados, evidentemente, sobra especulação. Mas, acho que é muito válido se trabalhar com a hipótese de que a presidente ainda vai crescer bem mais, mas principalmente por sua imagem (que melhorou muito após eleita) e por seus posicionamentos (mais afeitos à democracia, ao controle de gastos públicos e aos direitos humanos). É esperar para ver como ela se sairá diante do possível crescimento da inflação. É fundamental acompanhar de perto este tema.

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É interessante como a recusa de um convite pode ser tão elucidativa. O ex-presidente Lula não compareceu ao almoço oferecido para o presidente norte-americano e se ouviu falar de todo tipo de justificativa por parte dele. Nenhuma fez sentido, talvez pela razão última ser de ordem muito pessoal. Quem sabe?

Enfim, o fato é que muito foi conversado. Dos demais ex-presidentes praticamente não se ouviu nada, mas de Fernando Henrique, que sempre foi ouvido com atenção, se ouviram comentários dando conta que estaria ocorrendo mais “civilidade” por parte do governo Dilma. Essa fala de Fernando Henrique foi muito significativa e tem um poder de síntese extraordinário (e de provocação, é claro!).

A “civilidade” é algo que sempre foi trazido à tona diante da necessidade de se estabelecer uma clara diferença em relação aos “bárbaros”. Então, o que o ex-presidente Fernando Henrique quis, de fato, dizer? Estabelecer uma diferença, não só uma simples diferença, mas uma diferença marcante e positiva em favor do governo Dilma, confrontando-o diretamente com o governo Lula. Isso é que chamo de uma “cutucada intelectual”.

O fato é que, acostumado a se utilizar da “comparação” para medir o seu governo em relação ao de Fernando Henrique, Lula está virando alvo de comparações, só que em posição diferente, ou seja, ele agora é o “passado”. Mas, insisto, qual a razão de Fernando Henrique fazer esta comparação com base na “civilidade” de Dilma?

Não deixa de existir aí aquilo que conhecemos bem como uma espécie de “reconhecimento” do governo Dilma. Como se o governo Dilma estivesse recebendo não só um agrado, mas um sinal claro de que “está indo bem”, algo como uma “aceitação intelectual”, uma “benção”. Este talvez sempre tenha sido o lado “arrogante” que sempre permeia o termo “civilidade”, agora colado à Dilma. Mas, tudo bem, Fernando Henrique é um intelectual e sabe muito bem como usar as palavras, principalmente aquelas que, de um lado, elogiam, de outro condenam, e de outro ainda, abençoam.

Mas, além deste significado de “aceitação” por parte da elite da sociedade, o termo civilidade inspira outras observações. Ele demarca, como disse, um território, agora entre Dilma e Lula. É justa essa demarcação? Acredito que sim. Embora com muito pouco tempo de governo já existem “sinais” de que o governo Dilma terá seu estilo próprio. E aí pode estar residindo a razão última para explicar toda essa diferença.

A última pesquisa Datafolha já mostrou que a popularidade de Dilma foge àquele simplismo eleitoral que marcou as duas últimas eleições presidenciais, ou seja, ela avança bem em todos os grupos sociais, quase de forma idêntica. Por outro lado, seu comportamento com relação à pressão dos sindicatos (quando do aumento do salário mínimo) e sua postura em recusar-se mediar a situação líbia (quando solicitada por Kadafi) foram sinais claros de “civilidade”. É neste sentido que Dilma vai se transformando em uma governante muito mais “palatável” para o conjunto da sociedade.

O que mudou, então? A postura de Dilma contrasta com o estilo “nós x eles” que dominou o governo Lula desde após o escândalo do mensalão. Foi a partir dali que, qualquer tentativa de um governo de consenso foi dissipada. Lula governou muito mais tempo com base no “nós x eles” e isso, inquestionavelmente deixou marcas, quase cicatrizes. Foi um discurso duro, de sobrevivência após o escândalo do mensalão, e que se revelou eleitoralmente fantástico para sua reeleição e para a eleição de Dilma.

A questão é que, pelo seu estilo, Dilma talvez não saiba continuar reproduzindo o “nós x eles”. Foi isso que Fernando Henrique quis dizer quando falou em “civilidade”. Há claras diferenças de estilo, pelo menos por enquanto. É como se Dilma não desse sinais de manter viva a dinâmica do “conflito” sempre bem utilizada por Lula.

Por seu lado, o ex-presidente Lula, dois dias depois, em jantar com a comunidade árabe, classificou como “hilariante” o comportamento da oposição em elogiar Dilma por ser “diferente” dele. Lula disse que se Obama falou bem do Brasil foi porque ele, Lula, pegou o país de um jeito e o transformou numa potência. E, aproveitou para negar qualquer continuidade em relação ao governo Fernando Henrique (ora, se a política econômica é a linha mestra de um governo, é claro que houve continuidade), além de dizer que Dilma sim é a sua continuidade.

Lula, no jantar, também criticou Obama, dizendo que a cara do terror não é a de um latino-americano, nem a de um árabe, e sim norte-americana. Mas, em seu discurso também disse que tinha muito orgulho em ter passado o governo a uma mulher que foi “perseguida e torturada” (onde está a mãe, doce e meiga, do PAC?), sinal que prestou bem atenção no discurso de Obama no Teatro Municipal e em seus elogios ao passado de Dilma.

Lula vai ficar assim por algum tempo. Ele vive um momento de encontrar o seu espaço. Seu novo espaço, que já não é mais o de presidente, nem de centro das atenções. É na busca por este novo lugar que ele procurará manter, de forma integral, a ideia de que seu governo “não acabou” e que Dilma é um prolongamento. Realmente, Lula não está trabalhando com a possibilidade de seu governo ter passado, de existir um “pós-Lula”, como o ex-ministro Malan já havia anunciado em artigo no estadão em 13/03/05.

É interessante, mas, para Lula, seu principal inimigo neste momento não é ninguém da oposição, mas o “estilo” de Dilma. Se ela continuar assim, atenua a dinâmica conflitiva embutida no discurso do “nós x eles” de Lula e transforma Lula em “passado”, e ele terá que aprender a viver como… Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique, representando o passado recente do Brasil e interferindo na politica sempre que necessário. Será que ele aguenta? Improvável. Ainda teremos bons capítulos nessa novela, cujo capítulo mais atual intitulou-se “civilidade”.

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