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Archive for the ‘Oposição (PSDB)’ Category

Blindagem de Palocci me lembra novembro de 2005.

Palocci não cansa de fornecer elementos que “ferem” a boa política, mas sempre foi um homem de “confiança” da oposição.

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Depois da publicação do artigo do ex-presidente Fernando Henrique, e passada aquela fase imediata onde o “desentendimento” predomina e onde a inteligibilidade naufraga diante dos oportunismos ideológicos de discursos demagógicos e popularescos, começaram a surgir análises dotadas de alto significado. Uma delas foi a de Gaudêncio Torquato no final de semana passado e outra que gostaria de destacar foi o do professor Marco Aurélio Nogueira, de hoje (23/04), no Estadão.

O título do artigo, em si, já é revelador (Leituras Enviesadas) e o que o professor destaca é o seguinte: havia ali algo incômodo: uma provocação eficiente, uma verdade finalmente revelada ou a confirmação cabal de algo conhecido, mas que parecia esquecido. Mas, teria obtido ressonância onde seria mais necessário nesse momento, o PSDB? O professor também destaca que diante de tanta reação ficou difícil realçar seu núcleo argumentativo. E, quem ousou isso teria sido rechaçado pelo patrulhamento ideológico. E, como isso se deu? Quando o ex-presidente realça as novas classes médias como um largo setor social sem maior representatividade política (o que é um fato) foi imediatamente associado a alguém que tem horror ao povo. Independente de preferências partidárias, essa postura é infame e desonesta.

E quem liderou esse movimento de queimar o artigo de Fernando Henrique em praça pública? O ex-presidente Lula. Mas, por que Lula reagiria dessa forma a um debate proposto por Fernando Henrique, ainda mais que o debate não era diretamente com ele? Ora, qualquer passo que se dê em direção a uma tentativa de desconstrução do governo Lula, principalmente do ponto de vista ideológico, será tratado dessa maneira – onde tudo é resumido à “preconceito”, “horror ao povo”.

Está mais do que claro que Lula não se aposentou e deseja, o mais rápido possível, voltar ao poder e só o fará se reconquistar a classe média perdida, a mesma classe média que o abandonou quando do escândalo do mensalão e que ele mesmo a largou quando assumiu sua nova discursividade sustentada numa dinâmica conflitiva entre “nós versus eles”. Então, daqui pra frente o que veremos será uma sucessão de respostas intensamente ideológicas e rasteiras, visando desqualificar qualquer “insinuação” por parte da oposição, ainda que seja uma “insinuação” de ordem intelectual.

Ora, na mesma semana, Lula declara que, em São Paulo tem o desejo de conquistar os herdeiros do malufismo e do quercismo. O que é isso? Ou estou ficando maluco, ou existem dois Lulas. Prefiro ficar com a segunda opção. Existem dois Lulas, um que joga para a grande platéia, ou seja, para o “povão”, desqualificando qualquer debate e restringindo-o a uma meia frase incompreensível, descontextualizada e desrespeitosa, e outro Lula que joga o jogo da política, aquela política do poder a qualquer custo. E o pior, no dia anterior a proclamar este seu desejo pelos malufistas, ainda disse que o PSDB não tinha perfil ideológico.

Passado este momento inicial, caberá ao PSDB aproveitar o momento para discutir essa questão levantada pelo ex-presidente Fernando Henrique, afinal de contas, o que existe de mais concreto em tudo isso, como disse o professor Marco Aurélio Nogueira é que a classe média é um fato da vida e cresce na medida mesma em que se mostram eficazes as políticas sociais destinadas a reduzir a pobreza. O pobre que deixa de ser pobre pode até ser agradecido ao governo que o libertou, mas estará disponível para novas aventuras políticas pelo próprio fato de ter ingressado em outro universo social.

Talvez seja justamente isso que atormente Lula, ou seja, se deparar com um setor social que, agora, já sabe no que existem muitas coisas a pensar e levar em conta, além da “esperança”. O ex-presidente Lula tem todas as chances de voltar à presidência e de ter o seu lugar na História, mas precisa entender que a História não é feita exclusivamente por ele, e que a política merece um discurso mais sustentado na honestidade e não só na infâmia. É esperar e acompanhar o debate.

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Era mais do que previsível. Ontem mesmo, fazendo uma rápida avaliação do artigo do ex-presidente Fernando Henrique eu dizia dos riscos de a oposição começar a debater sobre algo que ainda não estava muito claro…e, pior, através unicamente da imprensa. Isso não é nada estratégico. O artigo sim, é estratégico em várias questões, e é um material que precisa ser lido e trabalhado para gerar ações partidárias e em bloco.

O que se viu foi, no primeiro dia de repercussão, não a voz de quem escreveu o artigo, mas comentários os mais dissonantes, e vindos da própria oposição. É claro que a imprensa está fazendo o trabalho dela, principalmente trabalhando em cima da “diferença”, mas a discussão da oposição não pode se dar dessa forma, tendo a imprensa como intermediário. É primeiro discutir internamente para depois fazer avaliações. Bem, não sou um expert no dia-a-dia partidário, mas é bem mais estratégico agir assim.

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Voltando a conversar um pouco mais sobre o recente artigo do ex-presidente Fernando Henrique percebe-se, hoje, que começam a surgir vozes contrárias levantando argumentos bem interessantes. Vejamos. O senador Aécio Neves, por exemplo, fala que é mais otimista e que em MG teve o apoio deste setor que Fernando Henrique estaria “dispensando”. E diz que o problema maior do partido é de conteúdo, coerência e clareza. O líder do PSDB na Câmara, Álvaro Dias falou, por sua vez, de uma necessária sensibilidade social às camadas mais pobres. E outros afirmam que essa dificuldade vem dos problemas de comunicação do partido.

Existem realmente coisas interessantes aqui. Mas, a meu ver, não podemos reduzir a questão a uma equação tão simplista. O mérito do artigo do ex-presidente está em chamar a atenção para que o PSDB, ao centrar seu olhar sobre as classes médias, assuma, de fato, um conteúdo programático coerente e claro (como deseja o senador Aécio) e, com isso, tenha maior facilidade de comunicação com o que seria uma base de sustentação político-eleitoral central, como desejam outros interlocutores. Esse é o mérito do artigo.

Não vejo, portanto, como reduzir a questão a ter que escolher entre uma classe ou outra. É fato que nenhum partido vai adotar uma postura classista, isso é improdutivo em tempos de democracia eleitoral (o PT já fez o caminho inverso), mas é fundamental que o partido tenha uma base de sustentação eleitoral mais nítida e que essa base não se revele somente em momentos de denúncia de escândalos de corrupção, como em períodos eleitorais.

Ora, vejo que Dilma está fazendo um caminho distinto ao proposta pelo ex-presidente Fernando Henrique. Mas, distinto em termos, pois se ela partiu de uma base (beneficiários do Bolsa Família) para buscar uma expansão em seu apoio para setores médios, o que o ex-presidente está propondo é exatamente que a oposição não fique aprisionada a uma disputa com o PT pelos setores de mais baixa renda. Mas, que tenha um discurso mais claro e coerente. Agora, quando leio o artigo penso que o ex-presidente escreveu pensando no Brasil, o que não exclui que lideranças, em determinadas regiões possam ter conquistado exatamente o inverso, como é o caso do senador Aécio.

Talvez o senador Aécio seja, de fato, uma liderança capaz de buscar esta maior amplitude de votos, bem acima de qualquer disposição sócio-econômica, como conseguiu em Minas, e quem sabe isso não possa ser testado nas eleições de 2014. Mas, isso não exclui o fato de a oposição buscar um discurso coerente e mais centrado não “em” uma classe, mas “a partir” de uma classe social cuja ressonância aos apelos da oposição é maior.

Observando de fora, o que vejo é que a única coisa que não pode acontecer é justamente deixar de acontecer o debate por se acreditar em soluções maniqueístas como, uma classe ou outra. Mas, pensar-se a partir” de uma base sócio-eleitoral já seria uma grande avanço. Seria um respeito à realidade.

Vejo, portanto, este artigo do ex-presidente como tendo o mérito maior de levantar o debate no seio da oposição e alertar, principalmente, para o fato de que, com Dilma, o PT busca recompor aquele espaço perdido quando o ex-presidente Lula, em meio às acusações do mensalão, foi desviando seu foco para os setores mais carentes.

Se a oposição quer avançar, o momento é o de aproveitar este clima de debate proporcionado, sem perder a chance de buscar uma maior clareza em seu discurso. Está claro, para todos, que o discurso da oposição está muito centrado nas questões de Estado e da economia. E isso não é problema algum, mas isso precisa ter um destino certo, e com comunicação mais acertada. E, a partir daí avançar. É exatamente assim que o PT, com a presidente Dilma está planejando. Embora eu avalie que a conjuntura, apesar dos avanços no estilo e postura da presidente Dilma, estejam muito mais com a oposição, justamente em função das dificuldades econômicas que podem estar por vir.

O ex-presidente Fernando Henrique faz um movimento muito interessante em lutar pelo seu legado, o das reformas do Estado e da estabilização econômica, base sobre a qual o país tem crescido. Dentro em pouco o PT assume este discurso definitivamente. Como se vê, em política, as ações as vezes perdem muito espaço para as palavras. É preciso, como sempre insisto, dar mais atenção a estas. E isto vem com coerência de discurso e disposição para o embate simbólico, mostrando as afinidades sociais e coerências discursivas.

O que as oposições não podem deixar acontecer, me parece, é deixar que este debate ocorra somente através da imprensa. Pois aí, mais uma vez, ficará a reboque de acusações e interpretações distorcidas e perderá todo o seu tempo, se defendendo, ou enfrentando a si mesma.

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Aécio Neves fez seu primeiro discurso hoje no Senado, mas para alguns não correspondeu às expectativas que causou na véspera. Se isso é um fato, é porque deve existir alguma forte ansiedade por uma oposição mais presente, ou, ao menos, por uma nova liderança de oposição. De qualquer forma, é uma ansiedade e precisa ser melhor controlada.

Após relembrar suas conquistas na Câmara dos Deputados já foi logo dando o tom de seu posicionamento. Não confundo agressividade com firmeza. Não confundo adversário com inimigo. Nada de novo, afinal Aécio, mesmo nos momentos mais críticos do governo Lula sempre manteve certa distância de maiores críticas. Aécio sempre se mostrou muito tolerante e é isso que continua pregando. Afeito aos debates e convergências, segue muito bem a escola mineira de seu avô Tancredo. Ele não vai abandonar esta escola. E é melhor que não o faça, pois seria uma descaracterização boba.

Depois de demarcar seu território e forma de atuação fez a “recuperação” histórica do Brasil recente. Lembrou que “nossos adversários” não estavam com Tancredo e a grande aliança democrática, nem com Sarney, nem com Itamar, mesmo com o Brasil sob risco de governabilidade. Em seguida, também lembrou que recusaram o Plano Real e foram contra a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Em seguida, rememorou o governo Fernando Henrique e a estruturação dos primeiros programas federais de transferência de renda, todos criticados como políticas assistencialistas e de perpetuação da independência. Em seguida, arrematou: Faço essas rápidas considerações apenas para confirmar o que continuamos a ver hoje: sempre que precisou escolher entre os interesses do Brasil e a conveniência do partido, o PT escolheu o PT . Nesse momento, Aécio nomeia seu adversário, o que é fundamental num discurso que pretende estabelecer mínimas fronteiras. Sim, porque, por mais que Aécio esteja movido pela sua escola mineira, ele precisa demarcar uma posição que é a de, gradativamente, líder de oposição. E isso só com o estabelecimento de algumas posições discursivas. Se Aécio sempre caracterizou-se por uma contemporização com relação ao PT, parece mais disposto a começar a apontar as divergências, ainda que tímidas. É um avanço, sem dúvida.

Quando enalteceu o governo Lula foi para dizer que ele soube manter a política econômica do governo anterior e, sobre Dilma disse que o Brasil precisa de uma “choque de realidade”, principalmente voltado para a atenção ao ajuste fiscal, ao risco de desindustrialização de setores da economia, reforço da infra-estrutura e o controle da inflação. Para que isso seja buscado, disse que a postura da oposição deve seguir três orientações: Fiscalizar com rigor; resgatar o princípio da Federação no Brasil; e aproximar-se dos diversos setores da vida nacional.

Já finalizando falou algo que pode revela bem a característica de sua oposição: anunciar iniciativas concretas ao governo em torno das grandes reformas, pois não dá para somente esperar do governo. Afinal, a oposição, segundo Aécio deve organizar seu exercício em torno de três valores: coragem, responsabilidade e éticaCoragem. Para resistir à tentação da demagogia e do oportunismo. Responsabilidade. Não podemos cobrar do governo responsabilidade se não a tivermos para oferecer ao país. E Ética. Não só a ética que move as denúncias. Não só a ética que cobra a transparência e a verdade. Mas uma ética mais ampla, íntima, capaz de orientar nossas posições, ações e compromissos, todos os dias.

É um discurso que não tem e não terá, jamais, apelo junto a setores muito pobres a não ser que seja “traduzido” em alguns poucos e oportunos sentidos. Mas, é um discurso de classe média, justamente o setor social que mais tende a crescer e que politicamente está mais desguarnecido à espera de lideranças, depois que o lulismo a abandonou. Cabe lembrar que aqueles setores que o governo Lula ajudou a alavancar economicamente e com um discurso populista, estão situando-se em uma nova posição social e isso certamente influenciará a direção que seu olhar e seus interesses se voltarão. Talvez aí esteja a oportunidade para a oposição voltar a marcar posição, após tantos anos de “indefinição discursiva”.

Bem, o fato é que Aécio parece ser o “cara” da oposição em 2014. Aliás, deveria mesmo ser o cara. Por enquanto sua estratégia está correta, não há mesmo que fazer reinar a intolerância. O momento é de marcar posições, quebrar com a hegemonia do discurso politicamente dominante, mostrar que existe “algo a mais”, esquadrinhar a classe média, renovar a postura discursiva e estabelecer, sempre, um contraponto, ao governo Dilma, fazendo-o reportar-se não somente à mídia, mas à lideranças da oposição. Isso vai estabelecer fronteiras e a população poderá ver que existe algo a mais, uma alternativa.

Enfim, se for por aí acredito que a oposição sai dessa situação paralisante. Mas, é um trabalho de médio prazo. Uma guerra de trincheiras. Aécio pode não ter o “clamor” discursivo, mas é o cara que pode se colocar como alternativa ao PT. Em si, ele já significa alguma renovação. O necessário é continuar, avançando para um novo discurso e para uma nova postura. 2014 será bem mais interessante.

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Em entrevista (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po0404201111.htm) o filósofo Marcos Nobre, da Universidade de Campinas, fala de uma “peemedebização” estaria em andamento no país, ou seja, algo que combina “adesismo” e “lógica do veto”, onde fazer política significa mais vetar que formular propostas.

O filósofo citou como exemplos desse processo a criação do PSD e a decisão do STF sobre a Lei da Ficha Limpa, tudo fruto de uma “cultura política peemedebizada”, uma cultura política que evita o confronto aberto e opera com uma lógica de veto… Não há um discurso positivo, não há uma tentativa de formar maioria e partir para o confronto. O que há é o veto e a tentativa de contornar os vetos. Há um bloqueio das discussões públicas que dissocia a política da sociedade. Trata-se de um modelo que se reforçou em muito após o mensalão.

Qual a relação com o mensalão? Com a crise, PT e PSDB perderam consistência após Lula ter se afastado do modelo polarizado em prol de um centro difuso. A diminuição do confronto permitiu que a lógica do peemedebismo retomasse um papel central. O fim da polarização é a vitória do peemedebismoO problema de Dilma é que ela recebeu um passivo político quase inadministrável… Ela recebeu uma quantidade enorme de acordos feitos por Lula, e todos muito generosos. São acordos com centrais sindicais, partidos, empresários, mercado etc. Mas Dilma não tem como manter todos. Há um limiteSe todo mundo está dentro e se todo mundo pode vetar propostas, o resultado é a paralisia.

E qual a solução para Dilma? Ela terá que mostrar que não há espaço para todo mundo e negociar acordos a um preço mais baixo. Dilma tem um “excesso de adesão” e isso é um fator limitador para os interesses de Kassab e do PSD, maior  expressão do peemedebismo. É a banalização da política. É um partido com discurso anódino, sem consistência, que gosta de se afirmar sem posição ideológica definida.

Uma boa questão, nesse momento, seria: Quais as condições e possibilidades de uma afirmação da oposição no cenário político? O primeiro passo é a constituição de um discurso. E isso exigirá uma leitura muito “fina” da realidade, pouco apegada aos fatos superficiais e episódicos e com mais capacidade de enxergar aquelas limitações que estão ocorrendo por baixo e que, mais à frente, serão a marca da gestão de Dilma. Se a oposição imagina que poderá ir se firmando em torno dos fatos criados pelo governo vai dar com os burros n’água. Uma leitura fina da realidade e um discurso consistente podem ser fundamentais para o médio prazo. 2012 está bem perto para já ir testando algo, mas para isso, é preciso começar. Não podemos esquecer que esse processo de peemedebização é fruto de um movimento feito por Lula no sentido do centro político, mas também é reflexo de uma descaracterização maciça do conteúdo da oposição no país.

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É interessante como a recusa de um convite pode ser tão elucidativa. O ex-presidente Lula não compareceu ao almoço oferecido para o presidente norte-americano e se ouviu falar de todo tipo de justificativa por parte dele. Nenhuma fez sentido, talvez pela razão última ser de ordem muito pessoal. Quem sabe?

Enfim, o fato é que muito foi conversado. Dos demais ex-presidentes praticamente não se ouviu nada, mas de Fernando Henrique, que sempre foi ouvido com atenção, se ouviram comentários dando conta que estaria ocorrendo mais “civilidade” por parte do governo Dilma. Essa fala de Fernando Henrique foi muito significativa e tem um poder de síntese extraordinário (e de provocação, é claro!).

A “civilidade” é algo que sempre foi trazido à tona diante da necessidade de se estabelecer uma clara diferença em relação aos “bárbaros”. Então, o que o ex-presidente Fernando Henrique quis, de fato, dizer? Estabelecer uma diferença, não só uma simples diferença, mas uma diferença marcante e positiva em favor do governo Dilma, confrontando-o diretamente com o governo Lula. Isso é que chamo de uma “cutucada intelectual”.

O fato é que, acostumado a se utilizar da “comparação” para medir o seu governo em relação ao de Fernando Henrique, Lula está virando alvo de comparações, só que em posição diferente, ou seja, ele agora é o “passado”. Mas, insisto, qual a razão de Fernando Henrique fazer esta comparação com base na “civilidade” de Dilma?

Não deixa de existir aí aquilo que conhecemos bem como uma espécie de “reconhecimento” do governo Dilma. Como se o governo Dilma estivesse recebendo não só um agrado, mas um sinal claro de que “está indo bem”, algo como uma “aceitação intelectual”, uma “benção”. Este talvez sempre tenha sido o lado “arrogante” que sempre permeia o termo “civilidade”, agora colado à Dilma. Mas, tudo bem, Fernando Henrique é um intelectual e sabe muito bem como usar as palavras, principalmente aquelas que, de um lado, elogiam, de outro condenam, e de outro ainda, abençoam.

Mas, além deste significado de “aceitação” por parte da elite da sociedade, o termo civilidade inspira outras observações. Ele demarca, como disse, um território, agora entre Dilma e Lula. É justa essa demarcação? Acredito que sim. Embora com muito pouco tempo de governo já existem “sinais” de que o governo Dilma terá seu estilo próprio. E aí pode estar residindo a razão última para explicar toda essa diferença.

A última pesquisa Datafolha já mostrou que a popularidade de Dilma foge àquele simplismo eleitoral que marcou as duas últimas eleições presidenciais, ou seja, ela avança bem em todos os grupos sociais, quase de forma idêntica. Por outro lado, seu comportamento com relação à pressão dos sindicatos (quando do aumento do salário mínimo) e sua postura em recusar-se mediar a situação líbia (quando solicitada por Kadafi) foram sinais claros de “civilidade”. É neste sentido que Dilma vai se transformando em uma governante muito mais “palatável” para o conjunto da sociedade.

O que mudou, então? A postura de Dilma contrasta com o estilo “nós x eles” que dominou o governo Lula desde após o escândalo do mensalão. Foi a partir dali que, qualquer tentativa de um governo de consenso foi dissipada. Lula governou muito mais tempo com base no “nós x eles” e isso, inquestionavelmente deixou marcas, quase cicatrizes. Foi um discurso duro, de sobrevivência após o escândalo do mensalão, e que se revelou eleitoralmente fantástico para sua reeleição e para a eleição de Dilma.

A questão é que, pelo seu estilo, Dilma talvez não saiba continuar reproduzindo o “nós x eles”. Foi isso que Fernando Henrique quis dizer quando falou em “civilidade”. Há claras diferenças de estilo, pelo menos por enquanto. É como se Dilma não desse sinais de manter viva a dinâmica do “conflito” sempre bem utilizada por Lula.

Por seu lado, o ex-presidente Lula, dois dias depois, em jantar com a comunidade árabe, classificou como “hilariante” o comportamento da oposição em elogiar Dilma por ser “diferente” dele. Lula disse que se Obama falou bem do Brasil foi porque ele, Lula, pegou o país de um jeito e o transformou numa potência. E, aproveitou para negar qualquer continuidade em relação ao governo Fernando Henrique (ora, se a política econômica é a linha mestra de um governo, é claro que houve continuidade), além de dizer que Dilma sim é a sua continuidade.

Lula, no jantar, também criticou Obama, dizendo que a cara do terror não é a de um latino-americano, nem a de um árabe, e sim norte-americana. Mas, em seu discurso também disse que tinha muito orgulho em ter passado o governo a uma mulher que foi “perseguida e torturada” (onde está a mãe, doce e meiga, do PAC?), sinal que prestou bem atenção no discurso de Obama no Teatro Municipal e em seus elogios ao passado de Dilma.

Lula vai ficar assim por algum tempo. Ele vive um momento de encontrar o seu espaço. Seu novo espaço, que já não é mais o de presidente, nem de centro das atenções. É na busca por este novo lugar que ele procurará manter, de forma integral, a ideia de que seu governo “não acabou” e que Dilma é um prolongamento. Realmente, Lula não está trabalhando com a possibilidade de seu governo ter passado, de existir um “pós-Lula”, como o ex-ministro Malan já havia anunciado em artigo no estadão em 13/03/05.

É interessante, mas, para Lula, seu principal inimigo neste momento não é ninguém da oposição, mas o “estilo” de Dilma. Se ela continuar assim, atenua a dinâmica conflitiva embutida no discurso do “nós x eles” de Lula e transforma Lula em “passado”, e ele terá que aprender a viver como… Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique, representando o passado recente do Brasil e interferindo na politica sempre que necessário. Será que ele aguenta? Improvável. Ainda teremos bons capítulos nessa novela, cujo capítulo mais atual intitulou-se “civilidade”.

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Em artigo no Estadão deste domingo, no “espaço aberto” (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110313/not_imp691246,0.php), Pedro Malan comenta algumas coisas acerca do desconforto embutido na expressão “pós-Lula”. Ele nos diz que Lula não é mais presidente, certo? Ele nos diz que muitos petistas vêem na expressão uma ironia, uma insinuação de que o ex-presidente teria que “sair da cena política” e vestir seus pijamas (como muito já foi recomendado a Fernando Henrique). A expressão também é mal vista porque levaria a se excluir Lula das próximas disputas presidenciais. Por fim, a expressão é criticada por ser uma tentativa de “desconstruir” o governo Lula e trazer à tona possíveis legados problemáticos.

Malan continua e diz que Dilma começou seu governo marcando bem algumas posições: na liberdade de imprensa e na política externa, por exemplo. Mas, sua principal questão será mesmo lidar com uma pesada herança deixada por Lula: a vasta expansão dos gastos públicos. Não há nada de errado na análise do ex-ministro Malan e os passos de Dilma na condução do “gerenciamento” das contas públicas indicam que sua posição está correta. Mas, o que isso, de fato tem a ver com a rejeição do termo “pós-Lula”?

É certo que Lula não é mais presidente. Também é certo, entretanto, que ele não vestirá pijama algum e também é muito certo que Dilma estará sempre numa corda bamba, se equilibrando entre o necessário “gerenciamento” das contas e a preservação da herança do governo Lula. Nisso, ela terá que demonstrar competência. Mas, por que a impaciência com o termo “pós-Lula”. Ora, é evidente que, para muitos, o lulismo sofreu apenas uma “interrupção temporária”, uma espécie de concessão à democracia que ainda não permite 3 mandatos seguidos, pelo menos por aqui. Lula será sempre um fantasma pairando por sobre o governo Dilma.

No início, ela sentirá saudades dele, como já demonstrou. Mas, e mais à frente? Se tiver que tomar medidas mais fortes na economia o que dirá? Que diagnóstico fará? Que discursividade usará? Fará algum tipo de relação com o governo Lula? Dilma foi preparada e colocada no poder para ficar 4 anos, isso todos sabem. Por isso, o termo “pós-Lula” soa como algo incômodo, pois ele surge como uma revelação de desejos inconscientes e inconfessados. O lulismo ainda não é algo plenamente configurado na cena política brasileira, ainda está no nível do desejo. Com o tempo poderá vir à superfície e revelar-se. Por enquanto, é um mal-estar.

Achei o artigo de Malan instigante, primeiro porque o tema do lulismo me interessa, depois, porque é da ordem do cotidiano. É um debate que gostaria de ver na cena pública. Agora, só mais uma opinião pessoal. É claro que, quase sempre, o termo pós-Lula é usado em termos irônicos e digo que não gosto de usá-lo, não por não querer enfrentar uma desagradável herança do governo Lula, mas simplesmente porque acho que esse “pós” ainda não chegou, de fato. Lula está fora do governo, mas, como disse, paira no ar como o candidato natural do PT à eleição já em 2014. Ou Dilma foi colocada na presidência para ficar 8 anos?

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Recentemente Dilma esteve em reuniões com sindicalistas e um dos temas que sobressaiu das conversas é a possibilidade de flexibilização na cobrança da contribuição sindical, que passaria a ser legítima a partir de aprovação em assembléias com os sindicalizados. Este é um exemplo da “tensão” e da “turbulência” que tem marcado a relação de Dilma com as centrais sindicais neste início de governo. Logo em seguida, vemos movimentos de Alckmin e de Aécio no sentido de se aproximarem de lideranças sindicais, inclusive convidando-as a participarem de cargos no governo. Ora, daí três coisas me chamam a atenção imediatamente:

1) A “tensão” de Dilma com o sindicalismo é apenas mais um movimento no sentido da flexibilização daquele monopólio político levado a cabo por Lula, que “abraçou” alguns movimentos sociais e “cuidou” deles. Agora, em uma nova fase de “reorganização” da máquina do Estado tais relação paternais podem começar a ser questionadas. Dilma pode estar assumindo o papel de “mãe suficientemente boa” (Winnicott), ou seja, aquela que não deixa de dar atenção a seus filhos, mas não impede que eles cresçam buscando alguma autonomia. É essa autonomia que as centrais sindicais devem se acostumar. O que Dilma faz, nada mais faz que ir em direção à uma maior flexibilização das relações entre capital e trabalho (tema no qual o Brasil é campeão em sustentar tradições). Não quero levar esta discussão para o “neoliberalismo”, mas Dilma é ou não a grande responsável pelo maior “gerenciamento” do capitalismo brasileiro na atualidade? E o que ela está fazendo é cuidar mais da casa. Pelo menos é isso que deixa transparecer. É claro que esta “tensão” não se transformará em “colisão”, é apenas uma “discussão de relação”.

2) O “namoro” do PSDB com lideranças sindicalistas é desprovido de um verdadeiro “afeto”. Uso esta linguagem somente porque falei de “namoro”. Mas, o que, de fato, o PSDB tem a ver com o sindicalismo? Que tipo de namoro pode surgir daí? Me parece que, somente, uma relação baseada em interesses imediatos e oportunistas. Representaria algo significativo para o partido e a oposição no médio e longo prazo? (estou falando em eleições) Não acredito. Isso não significa que o partido ou a oposição não tenham uma posição e propostas em relação ao sindicalismo, mas querer um “namoro” a esta altura do campeonato… soa como cômico. O que o PSDB está fazendo é aproveitando um momento de “discussão de relação” de Dilma com o sindicalismo para se insinuar e colocar sua sedução para funcionar.

3) É de se perguntar, legitimamente, qual o papel do sindicalismo na política atual. Como a sociedade enxerga o sindicalismo? Como os próprios trabalhadores enxergam o sindicalismo? Como a sociedade enxerga o sindicalismo? Como uma representação legítima? Como “máquina” e aparelhamento? Honestamente, não vejo razões que transformem o sindicalismo em uma “noiva” a ser tão desejada assim. Falo isso olhando para a política atual e em como a sociedade está se comportando.

Seria um simples “affair” do PSDB… ou um caso mais explícito de “relação a 3”? Não vai dar futuro! O que não exclui ganhos oportunistas e imediatistas, como dissemos. Não seria o momento do PSDB se posicionar nacionalmente com relação à estas questões espinhosas sempre que surgissem? O dia a dia da política acaba atrapalhando.

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