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Archive for the ‘Psicologia Social’ Category

Em sua coluna desta edição 167 da Revista Cult, V. Safatle comenta rapidamente sobre a difícil relação da arte moderna com a linguagem passada. O assunto me chamou a atenção por me encontrar sempre buscando respaldo em alguma “linguagem” do passado para encontrar algum conforto no presente.

Safatle se utiliza do exemplo da música para fazer seus comentários e, para isso, fala em “ruínas”, mas não como algo morto, sepultado, e sim como algo que nos assombra, “o pesadelo de uma linguagem arruinada porque nunca morre, linguagem que tira de algum lugar estranho a força de não querer morrer”.

Talvez quem não tenha vivido um pouco de um tempo passado e se encontre totalmente imerso nas posturas pós-modernas que a tudo descartam e tornam efêmero e substituível, não compreenda este texto. Mas, muitos, de alguma forma, estão sempre se ressentindo de algo que, por vezes, não se sabe bem o que é.

Vivemos uma época de pura instabilidade, de ausência de pilares em todos os sentidos. As linguagens (na arte especialmente) se sucedem freneticamente buscando superar-se constantemente seguindo estreitamente a chamada “lógica da moda” que trabalha com a oposição entre o “novo” e o “ultrapassado”. Mas, o que percebo é que há sempre uma tentativa de retorno, um retorno a um passado que teima em sobreviver. O ímpeto da pós-modernidade e sua voracidade já não lhe permite criar nada, sustentar nada e, por isso, vez por outra, busca alimentar-se do passado, oferecendo-lhe uma nova “leitura”.

De forma geral, isso nada mais é do que uma exemplificação de que há algo lá atrás que nos sustentou e que não pode morrer, pois se morrer, em que poderemos nos sustentar?

Talvez seja por isso que, sendo um amante da música como sou me sinta profundamente incomodado com a proliferação de uma linguagem musical que a nada sustenta, que é fruto do mero desejo de auto-superar-se, que é vítima do “hit do verão”. Talvez seja justamente por isso, que a música de um passado recente, para muitos, não faça sentido, mas, para outros, seja, justamente, a possibilidade de sustentação.

Experimentei isso, várias vezes, na recente turnê do álbum The Wall. Não foram poucas as pessoas que perguntavam: mas por que agora? ele ainda está vivo? Mas ele está tocando a mesma coisa de 40 anos atrás! isso é coisa do passado! Há, então, em muitos, certa perplexidade com a sobrevivência do passado. E aqui trago uma frase de Safatle que auxilia nesta compreensão.

Não se trata aqui de um mero movimento de regressão. Na verdade, estamos diante da estetização da consciência de que nosso mundo é feito de palavras que perdem força, de figuras em desaparecimento, de formas que envelhecem, mas que continuam, ainda, a mobilizar nossos desejos, um pouco como esses objetos infantis que guardamos, como se eles fornecessem uma cartografia das estações pelas quais nossas promessas de felicidade passaram.

O passado é ruína? Sim! Mas não está morto, e dele nós precisamos, constantemente. Do contrário só nos restará caminhar sobre um terreno pantanoso, e sem nenhuma direção! esta é a função de uma show como o de Roger Waters… dar força às palavras… mobilizar desejos que há muito podem estar paralisados… reacender nossas promessas de felicidade!

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Assistindo a um documentário sobre Auschwitz é impossível não fazer algumas observações. Naquele pedaço de terra que os poloneses chamavam de Brzezinka e os alemães de Birkenau, a poucos quilômetros de Auschwitz, foi construído um local para extermínio em massa de judeus.

Mas, não começou assim. Inicialmente foi a poderosa IG Farben (cartel de empresas) que se interessou pela extração de carvão e teve todo o apoio da máquina estatal nazista. Em seguida precisou de mão-de-obra escrava. Para completar a solução que vinha com o apoio da medicina, “liberando” para a morte (fuzilamento) aqueles que se enquadravam no Plano de Eutanásia Adulta, ou seja, os adultos inválidos, doentes e que já não conseguiam mais trabalhar.

Vista desse ângulo, a “solução final” nazista requer um olhar mais acurado sobre as relações entre o capital, a ciência e a máquina estatal. Quando os três se juntam para sustentar planos de conquista criam um complexo monstruoso. E isto não se viu somente na Alemanha Nazista.

Não eram os judeus que formavam esta mão-de-obra inicial e sim os prisioneiros soviéticos, considerados “sub-humanos” pelos nazistas alemães. Mas, como a “fonte” de mão-de-obra era considerada “inesgotável”, desde o início os barracões foram projetados para um número de prisioneiros bem superior à sua capacidade, pois isto geraria uma mortalidade necessária.

Logo em seguida vieram as deportações dos judeus alemães para o Leste. Inicialmente para os guetos que, muito rapidamente começaram a fica superlotados. Não à toa o Plano de Eutanásia Adulta se espalhou por todos os cantos – era um momento em que os nazistas ainda tinham “certo pudor” com os assassinatos brutais em massa. Esta foi a primeira fase do extermínio. A partir daí o horror é de amplo conhecimento.

O Holocausto é de responsabilidade dos nazistas, mas o horror é inerente à raça humana e quantas vezes fechamos os olhos para situações idênticas que ocorrem ao nosso lado, em maior ou menor proporção?

O maior resultado que uma boa leitura das atrocidades nazistas permite é ver-se que o horror não é fruto da mente doentia de um só homem (no caso, Hitler), mas de desejos adormecidos de grupos e, mesmo, de uma sociedade inteira. E, é só olhar para a história para encontrar dezenas e dezenas de casos como este.

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As Novas Classes Médias: entre a indignação e o “jeitinho”.

Comentários sobre recente publicação de Luciano Martins.

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Considerações sobre a Participação Política e a Apatia.

Quais as principais motivações para se participar? E quais as principais razões para não se participar?

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Neste domingo li dois rápidos e interessantes artigos sobre o “fim”, do mundo e da vida. Um de Marcelo Gleiser (Folha de S. Paulo) e outro de Márcia Tiburi (Revista CULT).

Não é de hoje que se fala no “fim do mundo”. O que isto significa? Não sou muito apegado a este tipo de leitura por considerá-la carente de qualquer evidência. Então, se não há evidências, como explicar tanta “falação” em torno do assunto?

Gleiser, que escreve relembrando uma palestra de Haque, destaca: Será que o medo do fim reflete um temor de ter desperdiçado a vida? De que ao chegarmos ao fim da linha não teremos nada que nos fará olhar para trás com um senso de realização?

Se assim for, não estamos mais do que revelando nossa própria preocupação, ou insatisfação, com o que estamos fazendo com nossas vidas. Vivemos uma era de superficialidades e, grande parte do tempo é perdido com trivialidades, daí a percepção de uma existência vazia.

São pequenas coisas que dão sentido à vida, mas pequenas coisas às quais damos valor. Mas, ao que estamos dando valor? Ao que todos fazem ao mesmo tempo? Deixamo-nos guiar por uma máquina que nos indica o que consumir e o que descartar. Nada menos autêntico.

É diante de uma situação como esta que Márcia Tiburi nos pergunta: “temos futuro?” Se observarmos a acomodação que a consciência tem hoje em dia com a Indústria da Felicidade (que promove o desejo por marcas e objetos), não temos mesmo. Aliás, quem pensa em futuro, com tanto a consumir no momento presente. Passado e futuro se fundiram no presente, tirando-nos a história e a possibilidade de construir algo mais duradouro. Tudo o que se constrói…se destrói rapidamente para dar lugar a outra coisa.

Discutir, em demasiado, o “fim do mundo”, me parece então revelar nosso temor em morrer sem um claro sentido dado à vida, nosso temor em morrer no vazio existencial promovido pela tentativa de ser feliz a qualquer custo, principalmente pelo “poder de compra”.

A depressão pela impossibilidade de consumir a tudo não é senão a porta de entrada de uma melancolia de uma vida sem sentido. É o que mais enxergo hoje em dia. Não acredito tanto em tantos sorrisos estampados. Me parecem apenas máscaras.

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Quando as pessoas são uma ameaça… quando o mundo é uma ameaça… quando o Real é uma ameaça prestes a nos invadir… construimos barreiras psíquicas por vezes muito resistentes, sem percebermos, muitas vezes, que não é o “Outro” ou algo externo que nos invade… é apenas um aspecto de nós mesmos, que dificilmente reconhecemos, com quem passamos a estar em diálogo intenso.

O Muro (“The Wall“), portanto, é uma daquelas metáforas que facilmente falam do objeto a que querem representar. Em The Wall, Roger Waters nos oferece essa bela metáfora.

Neste mês de março ele estará de volta ao Brasil com uma turnê que está prestes a completar dois anos de estrondoso sucesso por onde passa. Não à toa. Não se trata de um artista pop, desses que ocupam a cena midiática do entretenimento descartável onde as novidades se sucedem na mesma velocidade em que são dispensadas de seu “lugar” na mídia.

Não! Roger Waters, assim como o Pink Floyd já integram aquela galeria de clássicos que, se ouvidos daqui a 500 anos serão facilmente lembrados e respeitados. Para os que ainda não perceberam, estou falando do álbum de 1979, Pink Floyd The Wall, uma daquelas obras primas que a arte nos oferece.

Uma obra prima não só pelo seu volume de vendas, nem somente pela melodia de suas músicas. Há algo mais ali. Trata-se de um álbum conceitual. Trata-se de um encadeamento musical onde cada lirics está vinculada à outra de uma forma indissolúvel, como num contar da história. Podemos, certamente, ouvir cada música em separado, mas quase nada se iguala à experiência de olhar para todas elas e enxergar um todo coeso, que fala de algo.

Sim, que fala de algo. Fala desse algo que é justamente essa tentativa que fazemos de construir “barreiras protetoras” para evitar nosso sofrimento psíquico. Daí a metáfora do Muro, tão presente nas apresentações ao vivo da banda ainda no início dos anos 80, como na atual turnê de Roger Waters.

Em tempos em que se é praticamente proibido falar de “depressão”, em tempos em que se é “obrigado a ser feliz” a qualquer custo, não á toa é o mesmo tempo em que mais a depressão deixa sua marca. daí a atualidade dessa obra do Pink Floyd e de Roger Waters em especial, já que praticamente todas as músicas foram escritas por ele.

Ouvir The Wall, então, pode ser uma experiência para além da musical. Talvez muitos não tenham tempo ou disponibilidade para fazer isso, mas é importante sempre lembrar que “há algo a mais” naquelas músicas e que merece ser lembrado sempre.

Com a metáfora do Muro, Waters nos conta um pouco de sua vida e, por extensão, de nossa própria vida, em vários aspectos. O que fiz, a seguir, foi tentar uma esquematização que mostre a música e seu significa para esse “todo coerente” que é o álbum, como numa sequência de atos que culmina para um clímax delirante do ponto de vista musical e dilacerante do ponto de vista psíquico.

O que mostro abaixo é uma livre esquematização do álbum, onde cada música faz parte de um ato que compõe uma cena da música e da vida. Tudo entrelaçado, na melodia, e na própria vida.

MÚSICA

ATOS

 

Prólogo – O horror da cena primária

When The Tigers Broke Free

(part 1)

A ausência do pai é mostrada através da absoluta falta de entendimento quanto à sua morte. Uma morte sem explicação. Parte de um plano militar, onde os homens comuns encontram seu fim. É desta cena que Pink não consegue libertar-se. É ela que dá forma ao seu vazio.

 

Ato 1 – O convite à revivência do horror

In The Flesh

Pink desafia a platéia a sair de sua passividade, a desafia a tirar a máscara e ir além do espetáculo, a mergulhar na fantasia em busca de algum sentido. É o início do mergulho na subjetividade.

Ato 2 – Um desamparo dilacerante

The Thin Ice

Sente-se sobre uma fina camada de gelo, inseguro, incerto. A qualquer momento tudo pode ruir e ele mergulhar, tendo atrás de si os medos e aflições. A angústia é muito intensa

Another Brick in the wall

(part 1)

O pai partiu para a guerra, mas o que deixou para ele? Só uma foto. Não, ele quer o pai de volta. Mas o pai era apenas um homem comum, só mais um tijolo no muro.

When The Tigers Broke Free

(part 2)

O rei George havia comunicado sua mãe da morte do pai em um belo pergaminho. Seu pai havia sido retirado de si por eles.

Goodbye blue Sky

As bombas sobre Londres podem ter cessado, mas persistiu a dor. A esperança de um novo mundo se foi.

Ato 3 – A quase impossível construção de uma identidade

The Happiest days of our lives

O que eram para ser os melhores dias da vida (infância) podem tornar-se insuportáveis e violentos diante de uma socialização estúpida e grosseira.

Another brick in the wall

(part 2)

Um momento de desconstrução da socialização massificadora através da explosão de violência juvenil em sua busca por identidade.

Ato 4 – A onipotência materna

Mother

A mãe o protege, mas também projeta seus medos, seus pesadelos. Se torna onipotente e acaba por lhe estimular à construção do muro.

Ato 5 – A construção do muro

Empty spaces

A decisão já está tomada. O muro será construído. Começa a busca pelo preenchimento dos espaços… a busca por tijolos.

What Shall We Do Now

A busca de coisas para saciar sua fome, seu vazio, as lacunas do muro

Young lust

Momentos de luxúria, mas sem qualquer satisfação

Ato 6 – A lenta desistência e abandono da realidade

One of my turns

Se desespera, grita e continua quebrando tudo. Quer alienar-se, fugir. Abandonar a realidade que o massacra.

Don’t leave me now

Todas as rejeições em sua vida lhe vem à tona, com mais uma rejeição de uma pessoa amada. Ele ainda resiste a ficar sozinho. Mas, não consegue.

Another brick in the wall

(part 3)

Está decidido a alienar-se. Ninguém vai mais impedi-lo. Vai em rumo ao desconhecido. Quem sabe assim, terá paz.

Goodbye cruel world

A decisão está tomada. Ele se despede. Aliena-se da realidade e seu muro cresce… não para de crescer.

Ato 7 – O isolamento

Is there anybody out there

Tenta uma comunicação com os que estão do lado de fora. Sabe que estão lá…mas eles não respondem

Hey you

Intensifica o apelo para que o ouça. Clama por algum contato. Parece ainda ter alguma esperança e diz que todos devem estar juntos, e não divididos. Do contrário, os vermes tomarão conta dos cérebros. Ele sabe que não mais sairá de seu isolamento.

Nobody home

Desiste e volta-se para si mesmo. Senta, se acalma, tenta se refazer. Não há mais ninguém, somente ele mesmo. O dramático encapsulamento é inevitável.

Bring the boys back home

Faz uma volta ao passado. Relembra suas esperanças todas depositadas na estação de trem, onde esperava pela volta do pai. Mas ele nunca veio.

Vera

Relembra de velhos sonhos e esperanças contidas em antigas canções. Pergunta-se: ninguém mais sente isso? Ninguém mais sente esses desejos?

Ato 8 – O entorpecimento

Comfortably Numb

Ele desiste, conforma-se em seu entorpecimento. Não quer mais voltar. A criança que havia desapareceu junto com os sonhos.

The show must must go on

O querem de volta. Ele precisa continuar o show. A vida, a realidade o chama de volta. Ele não pode parar. Mas, como continuar?

Ato 9 – A explosão alucinatória do ressentimento

In the flash

Ele retorna ao show, mas agora está plenamente no comando. É um comando fascista, preconceituoso, perseguidor, que não reconhece diferenças, não reconhece o outro.

Run like hell

A perseguição se intensifica. Ele aponta para a culpa de todos, para suas vidas em frangalhos.

Wait for the worms

A necessidade é de novas regras. É preciso uma raça pura, eliminar os fracos. Os vermes devem tomar conta e é preciso segui-los,

Ato 10 – A expiação da culpa e uma aposta final no social

Stop

Chega! Ele está cansado. Será mesmo que foi culpado por tudo? Por que não largar o uniforme e ir para casa?

The trial

Não consegue voltar sem se submeter a um julgamento. Precisa saber se foi mesmo culpado por tudo. Precisa saber se realmente fracassou como filho, como aluno, como marido. No final, é condenado a conviver com seus medos… não há saída na realidade. Não há certeza de felicidade.

Outside the wall

Ele sai. Rompe sua defesa, sua proteção em forma de muro. Apela a que todos se unam e que tragam de volta os sentimentos de humanidade.

Quantas vezes não nos sentimos assim, criando muros, criando barreiras? Quantas vezes não nos submetemos a julgamentos de nosso próprio superego? Quantas vezes não somos chamados de volta à realidade, com todas as suas imposições? Pode não ser mesmo muito agradável, nos dias de hoje, falar de nossas dificuldades psíquicas… mas quando estaremos dispostos a conversar sobre isso? Afinal, não à muro suficiente forte para nos proteger.

Para os que são fãs do Pink Floyd e para os que conhecem bem o álbum The Wall nada disso é novidade, mas para os que estão chegando agora, sejam bem vindos neste mergulho na própria subjetividade.

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A crise do “indivíduo liberal” e a proposta da Psicanálise (V. Safatle).

Safatle situa a “crise” da Psicanálise em meio ao fracasso de valores contemporâneos e mostra que o sofrimento do “indivíduo liberal” pode estar se dando pela crença exacerbada em valores irrealizáveis. Clique no link acima para ler e comentar.

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Um lugar entre o psíquico e o social – II.

Voltando à questão das “raízes psicológicas da política”.

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Hoje, 07/04, em sua coluna na Folha, Contardo Calligaris (“Relativismo, em termos”) nos fala sobre o obscurantismo dos tempos atuais e usa a religião como pano de fundo. Cita, por exemplo, a reação de homens-bomba que, na tentativa de punir o pastor americano que teria queimado o Alcorão, teriam matado muitos em um ato suicida. Seria necessário, segundo Calligaris, escandalizar alguns valores básicos de nossa modernidade, não que, necessariamente, a “rebeldia” seja um valor “natural” ou “mais evoluído” que a obediência às tradições.

Segundo Calligaris, nossos valores não são tão especiais a ponto de serem considerados, como Luc Ferry citou, os “mais humanos”. Tudo bem que eles podem ser valorizados e enaltecidos mas, daí a rejeitar sua crítica é uma distância muito grande. Por que insistir que os valores da modernidade são mais avançados? É preciso algum relativismo aí, afinal nossa cultura não é o suprassumo da essência humana, o que, entretanto, não significa jogá-la na lata do lixo.

Segundo Calligaris, o relativismo não significa que todos os valores se equivalem, mas que, para defender a cultura da gente, não é necessário nem é bom considerar que nossos valores sejam “naturais” ou “essenciais” e, portanto, estejam acima da diversidade dos tempos e dos costumes. Por que não é bom? Simples: quando consideramos nossos valores como “naturais”, paramos de enxergar que, como qualquer cultura, a nossa também é, antes de mais nada, um dispositivo de controle das mentes e dos corpos -ou seja, perdemos a capacidade de criticar nossa cultura.

Saímos, é certo, da ditadura das tradições, mas caímos na dos “sentimentos, da autenticidade procurada, da confissão escancarada”. Mas, isto não é o fim da história. A posição de Calligaris acerca do relativismo é interessante. Ao mesmo tempo que nos reconhecemos nessa cultura, “é a nossa cultura”, não podemos nos deixar levar por uma onipotência que não permitirá autocrítica. É preciso sim escandalizar um pouco mais certos valores. A discussão religiosa, por exemplo, beira o ridículo. Que a fé ocupe seu espaço no coração e na mente de muitos, mas nada mais que isso. Por vezes imagino que vivemos uma nova Inquisição, onde a intolerância só revela a fragilidade de diversas estruturas religiosas e seus mitos de origem. Então, o que de tão “moderno” há nisso? Talvez até estejamos às portas de uma nova era de “obrigações tradicionais”.

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O assunto não é novo, mas está ficando cada vez mais comum. A justificativa é sempre a mesma: “meu filhinho escapou…ele não pára…vive correndo e sumindo…”. Mas, as coisas não foram sempre assim? Dá pra evitar? E qual o papel dos pais nessa hora? Não é estar próximo dos filhos? Ah, mais eu tenho que olhar outras coisas…então é uma questão de escolha. Voce prefere olhar “outras” coisas a ter que se posicionar como pai e mãe. Não sei, mas é um indício de falência das funções materna e paterna? Sobressai o cuidado com a proteção física. O que falar sobre tudo isso? Não dá pra discutir a desculpa dada. A questão é mais embaixo… é de fracasso, fracasso na posição de pai e mãe. É preciso ter autocrítica e rever essas posições, pois elas estão falhando, e feio. É o típico caso onde vai ter sempre alguém dizendo que é necessário pois meu filho é isso…ou aquilo. Mas, não seria melhor inverter a questão e dizer: “ah…eu sou isso e minha esposa é aquilo”? É muito comodismo e praticidade, algo muito típico de tempos “pós-modernos”, onde ninguém mais quer ter funções ou responsabilidades e nem mesmo afetividade. Eu hein… Mas, acho que meu espanto é por agora… quem sabe dentro de mais alguns anos essa prática não será mesmo bem normal…e aí o McDonald’s servirá seus lanches em pequenos potinhos… no chão… quero o meu com muito cheddar!!!! Ainda bem que meu filho já está bem grandinho e adorávamos andar de mãos juntas… Já pensou ele agora, com 20 anos, correndo dentro de casa, pulando no sofá e me dando lambidas…e quando quisesse passear…a primeira coisa que ia fazer era correr e ficar olhando para a coleirinha. Talvez até seja divertido, perdi essa chance…mas não quero deixar de saber onde isso vai dar.

http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/889135-coleira-para-criancas-inspira-olhares-criticos-e-reflexoes.shtml

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