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Posts Tagged ‘C. Calligaris’

Na sua coluna de hoje na Folha de S. Paulo, C. Calligaris nos fala um pouco sobre a depressão e sobre desejos. Nos relata dois casos de sua clínica que estão em busca de seus desejos. Ambos parecem “perdidos” e acreditam que só vão se “achar” quando descobrirem seus desejos. Não custa lembrar que vivemos um momento em que experimentamos coisas numa velocidade jamais vista e que isso, realmente, cria uma situação de desconhecimento de si mesmo. Quem sou eu? qual é o meu desejo? O que quero realmente?

Por trás disso, volto a Calligaris e ele nos diz que existe uma sensação de que podemos ser felizes ser encontrarmos nossos desejos. Podemos? Isso é uma garantia? Calligaris responde: o “nosso” desejo” nunca é UM desejo definido por UM objeto ou por UM projeto. Não existe, nem escrito lá no fundo escondido de nossa mente, UM querer definido, que poderíamos descobrir e, logo, praticar com afinco e satisfação. 

Ora, como Calligaris nos diz, desejar é uma atividade que se realiza permanentemente, e isso nada tem a ver com sermos volúveis. Ou seja, mesmo quando estamos alegremente convencidos de estar fazendo o que queremos com nossa vida, nunca estamos ao abrigo do surgimento de desejos novos. Estamos, portanto, sempre sujeitos ao surgimento de novos desejos. O que fazer com eles? Silenciá-lo e reprimí-lo?

Não há porque negar os desejos que surgem ao longo de nossa existência. Claro que eles podem significar uma ameaça de ruptura com nosso presente. Mas, qual o custo, também, de não reconhecê-los? Nesse momento, Caligaris faz uma relação com a clínica da depressão. Nos diz que, quase sempre, no tratamento da depressão, buscamos suas causas em lutos e perdas ao longo da vida. Mas, será só isso? E quem garante que não pode se tratar de um novo desejo que está surgindo e criando o mal-estar?

Reconhecer este novo desejo pode ser a oportunidade de sair do mal-estar, do quadro de frustração. Não reconhecer os novos desejos que vão surgindo em nossa vida significa empobrecer essa mesma nossa vida, desvalorizá-la, torná-la permanentemente frustrante. Como finaliza Calligaris: Moral da fábula: 1) Não existem vidas definitivamente resolvidas, pois novos desejos surgem sempre; 2) É bom reconhecer os novos desejos, mesmo que deixemos de realizá-los.

Na clínica, não estamos em busca de um “tesouro perdido” (nosso desejo), mas de um conhecimento de si mesmo e do reconhecimento que a vida é um fluxo contínuo de novos desejos. Isso nao tem nada a ver com a volatilidade dos tempos atuais, que nos impede de qualquer reconhecimento, mas tem a ver com o movimento, com a dinâmica que a vida significa, e que temos que reconhecer. Não nascemos de um jeito… vamos nos tornando, ao longo da existência.

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Em sua coluna de hoje na Folha (“Bye, bye Bin Laden”), Contardo Calligaris nos faz pensar, como sempre. Ele provoca: “Por que respeitar Bin Laden?… ele nunca representou ideia alguma”. O que é o “homem-bomba”? É alguém que precisa se explodir junto com os outros. Mas, por que?

Segundo Calligaris, o homem-bomba não é um fanático que tenta matar inimigos de uma “civilização” diferente. Ao contrário, o homem-bomba é filho da abertura moderna do mundo e das fronteiras, com seu corolário: a competição das culturas pelos corações e pelas mentes de todos e especialmente dos que viajam e migramQuem migra de uma cultura tradicional para a modernidade ocidental fica quase sempre dramaticamente dividido entre a sedução do Ocidente e a culpa de estar traindo sua cultura de origem.

Nos lembra que alguns dos pilotos do 11 de Setembro, na noite do dia 10, despediram-se da vida bebendo e brincando num “night club”; aparentemente, eles imaginavam o paraíso dos mártires, com sei lá quantas virgens, nos moldes de um “night club” da Nova Inglaterra. Quase certamente, eles se odiavam e nos odiavam por isso. Assim, explodindo os inimigos, o homem-bomba tenta silenciar um mundo que o tenta e ao qual ele não sabe resistir. Explodindo-se, ele resolve o conflito do qual ele mais sofre: seu conflito interno.

Dessa forma, Bin Laden não foi representante de nenhuma ideia ou cultura; foi apenas parasita de um conflito psíquico. Enquanto terapeuta, tenho por ele um desprezo particular. Afinal, bem ou mal, eu passo meu dia tentando ajudar as pessoas a negociar e tolerar seus conflitos internos. Bin Laden dedicou sua vida à tarefa de tornar intolerável o conflito interno de migrantes e viajantes, para convencê-los a vestir um cinto de explosivos. Bye bye.

Nada a questionar nesta análise de Calligaris, só a expandir pois, se o conflito cultural que vivemos hoje em larga escala no mundo ajuda a explicar o surgimento destas posturas psiquicamente “doentias”, podemos, ao olhar para nossa própria cultura, também encontrar motivações para comportamentos semelhantes. Ou adolescentes pobres ou de classe média não matam e morrem junto, também, por não suportar a não convivência e as perdas daí advindas desses choques, nem tanto culturais, mas sociais? Aquele rapaz na escola do realengo, matou e morreu por não ter condições de suportar a si e sequer encontrou ajuda para isso.

Em uma sociedade amplamente narcisista como a contemporânea, onde o individualismo é alimentado pela competitividade mais selvagem, o “outro” é destruído facilmente. Que solidariedade pode resultar disso? Pouca coisa, mas sobra espaço para o florescimento de atitudes paranóicas, psicóticas e delirantes. Estamos matando o outro e a nós mesmos por não estarmos mais conseguindo viver… juntos.

Mas, como dizem por aí… as melhores ajudas psíquicas estão nos shoppings, nas compras, nos belos e novos aparelhos eletrônicos, nos altos cargos, no luxo, naquilo que é exclusivo… enfim, muito delírio e pouca chance de lidar diretamente com as verdadeiras questões. Vamos ver até quando as mercadorias do luxo capitalistas vão ser os nossos melhores terapeutas.

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Hoje, 07/04, em sua coluna na Folha, Contardo Calligaris (“Relativismo, em termos”) nos fala sobre o obscurantismo dos tempos atuais e usa a religião como pano de fundo. Cita, por exemplo, a reação de homens-bomba que, na tentativa de punir o pastor americano que teria queimado o Alcorão, teriam matado muitos em um ato suicida. Seria necessário, segundo Calligaris, escandalizar alguns valores básicos de nossa modernidade, não que, necessariamente, a “rebeldia” seja um valor “natural” ou “mais evoluído” que a obediência às tradições.

Segundo Calligaris, nossos valores não são tão especiais a ponto de serem considerados, como Luc Ferry citou, os “mais humanos”. Tudo bem que eles podem ser valorizados e enaltecidos mas, daí a rejeitar sua crítica é uma distância muito grande. Por que insistir que os valores da modernidade são mais avançados? É preciso algum relativismo aí, afinal nossa cultura não é o suprassumo da essência humana, o que, entretanto, não significa jogá-la na lata do lixo.

Segundo Calligaris, o relativismo não significa que todos os valores se equivalem, mas que, para defender a cultura da gente, não é necessário nem é bom considerar que nossos valores sejam “naturais” ou “essenciais” e, portanto, estejam acima da diversidade dos tempos e dos costumes. Por que não é bom? Simples: quando consideramos nossos valores como “naturais”, paramos de enxergar que, como qualquer cultura, a nossa também é, antes de mais nada, um dispositivo de controle das mentes e dos corpos -ou seja, perdemos a capacidade de criticar nossa cultura.

Saímos, é certo, da ditadura das tradições, mas caímos na dos “sentimentos, da autenticidade procurada, da confissão escancarada”. Mas, isto não é o fim da história. A posição de Calligaris acerca do relativismo é interessante. Ao mesmo tempo que nos reconhecemos nessa cultura, “é a nossa cultura”, não podemos nos deixar levar por uma onipotência que não permitirá autocrítica. É preciso sim escandalizar um pouco mais certos valores. A discussão religiosa, por exemplo, beira o ridículo. Que a fé ocupe seu espaço no coração e na mente de muitos, mas nada mais que isso. Por vezes imagino que vivemos uma nova Inquisição, onde a intolerância só revela a fragilidade de diversas estruturas religiosas e seus mitos de origem. Então, o que de tão “moderno” há nisso? Talvez até estejamos às portas de uma nova era de “obrigações tradicionais”.

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Em sua coluna semanal na Folha, sempre muito interessante, Calligaris trata (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3103201126.htm) da questão da “fabricação” da doença . O que instiga é o fato de sentirmos certo conforto em nos colocarmos como culpados de alguma desgraça que se abateu. Seria como admitir uma espécie de “responsabilidade” sobre a doença, e isso daria algum “sentido” a tudo.

Claro que o mais comum, diante de uma notícia ruim é procurar um agente causador externo, principalmente Deus ou o Diabo. São típicos delírios paranóicos, pois, em geral, quando temos intenções que preferimos esconder de nós mesmos, uma boa solução é atribui-las a outros… Desse ponto de vista, reconhecer que nós somos os primeiros culpados de nossa desventura seria um progresso. É aí que entra o “fabricar” a doença, que passa quer seja por uma poética do estouro (emoções contidas e silenciadas tiveram que se expressar e explodiram numa neoplasia), quer seja por uma poética da erosão (as mesmas emoções reprimidas foram atacando o corpo como a famosa gota que cava a pedra, não pela força, mas caindo repetidamente). Mas, na realidade, deixando de acusar Deus e acusando a si próprio não significa progresso algum.

De um lado, a posição de “vítima”, de outro, a de “culpado”. Em ambas, o sujeito está sempre no centro, em meio às luzes. Em suma, agimos e pensamos como se nosso sofrimento pudesse ser aliviado por uma compensação narcisista: a desventura é terrível, mas, ao menos, como vítima ou como culpado, sairei na foto. Não é uma consolação? Talvez. Mas é uma consolação custosa, porque, nessa foto em que sou vítima ou culpado, a desventura é o que me define, o que me resume. Mas, qual o espaço para o “mal aleatório”, o “mal sem sentido”? O mal que não faz parte de plano algum, e de nenhuma vontade externa ou mesmo nossa. Aceitar isso seria um bom teste de saúde, ao invés de se ficar acrescentando mil sentidos imaginários aos males reais, que já são suficientemente graves.

Um belo texto que nos faz pensar bastante sobre como e difícil escapar às duas maiores tentações: a culpabilização e a vitimização. São duas questões que permeiam nossas condutas no cotidiano, e sobre as quais precisamos, sempre, dedicar alguma atenção, pois o sentido de nossa vida não pode se constituir nesta polaridade. É preciso deixar um espaço ao acaso, ao imponderável, afinal… quem disse que controlamos tudo, ou que somos permanente objetos de controle? Aceitar a existência do acaso nos dá certa liberdade de movimento, sem precisarmos a todo instante do recurso ao delírio paranóico. Aceitar o acaso pode nos dar certo sentimento de impotência, mas se somos humanos nossa maior tarefa é justamente aprender a lidar com esta impotência que, se reconhecida, pode ser uma grande fonte de conforto e… criatividade.

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