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Posts Tagged ‘Dilma’

Talvez hoje surja algum “barulho” que diminua o “silêncio mais intrigante da República em muitos anos”, como disse Fernando Barros e Silva, da Folha. Mas, quais as expectativas sobre isto? Palocci, de fato, ainda tem chances mesmo de continuar no governo? Ele está visivelmente desprestigiado. O PT e a presidente sentiram que não dá para segurá-lo por muito mais tempo. Tentaram, alegaram golpismo, interesses eleitorais, enfim, as defesas de sempre, mas quem está mesmo disposto a bancar Palocci que, em termos de denúncias e acusações, já deixou de ser “primário” a muito tempo?

O silêncio de Palocci é o exemplo mais claro de um silêncio perturbador, que incomoda, pois sua expectativa é que triunfe a mentira com o apoio do tempo. Esse é o mais perturbador dos silêncios, aquele que quer nos fazer de agentes absolutamente passivos de uma ação que diretamente nos atinge: a corrupção.

De fato, o que vai sobrar disso é mais um troféu na sala de escândalos do PT e da República brasileira, e um governo cada vez mais acomodado ao lado do PMDB. E olha que já foi o tempo que um partido mais à esquerda podia criticar ideológica ou moralmente qualquer partido de direita. O que está acontecendo é simplesmente uma maior acomodação do PT ao PMDB.

Ainda sobre Palocci, o que há para explicar? Se, de fato, as acusações fossem “golpistas” teria sido muito fácil vir à imprensa e desmascarar os golpistas, mas não, não era tão fácil assim. Talvez Palocci, de fato, só fale buscando minimizar o estrago já feito, esperando que, por um milagre, mais uma vez alguém venha em seu socorro, como Lula o fez em 2005, ainda na crise do mensalão. Mas, Lula não está mais no poder, e Dilma, nem de longe possui o carisma de Lula para brecar uma acusação como a que Palocci está sofrendo. Além disso, se falar, é provável que seja em entrevista a algum jornal na TV, o que reduz em muito as chances de ser eficientemente questionado.

Ele se tornou desnecessário. A oposição também não o vê mais como interlocutor necessário junto ao governo para o resguardo da política econômica. Palocci, então, está entregue à sua própria sorte e, por isso, não sobreviverá politicamente nesta conjuntura. Dilma não lhe estenderá a mão e, mesmo se o fizer, não terá tanto impacto positivo. Mesmo porque muito mais importante que assegurar Palocci é tentar alguma ordem na base aliada, que ameaça, constantemente, desmoronar.

Onde está a força do “governismo”? Eu mesmo cheguei a acreditar que Dilma teria a seu favor este movimento que vinha se desenhando desde os fins da eleição de 2010. Talvez, passada esta conjuntura crítica, o governismo venha com força novamente. Mas, ainda assim, o PT e Dilma terão capacidade e competência para montar mesmo uma base aliada? E, que estratégias e recursos utilizarão para isso?

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Hoje, na Folha, o jornalista Valdo Cruz comenta que o modelo de privatização dos aeroportos aprovado ontem pela presidente Dilma é semelhante ao que a então ministra da Casa Civil descartou durante o governo Lula por ser contra transferir a administração dos aeroportos ao setor privadoÉ, também, um modelo que a candidata Dilma não defendeu durante a campanha presidencial. Motivo: destoava da estratégia de sua equipe de colar no PSDB a pecha de privatista, reprise do que havia ocorrido na eleição de 2006.

O que mais dizer? Praticamente nada, exceto por alguns comentários. O posicionamento do jornalista está correto e mais interessante ainda a conexão feita com as duas últimas eleições. De fato, em linhas gerais, a postura do PT nas eleições presidenciais de 2006 e 2010, na TV, foi idêntica. E a do PSDB também. Para chegar ao segundo turno a oposição teve que valer-se de escândalos políticos e de corrupção (dossiê em 2006 e caso Erenice em 2010) e o PT, no segundo turno, bateu na mesma tecla: carimbou o PSDB como um partido privatista. E deu certo.

Mas, isso só mostra o quanto, por vezes, a eleição se torna um ambiente que não passa de um simulacro da realidade. Um ambiente, por vezes, dominado por técnicas de persuasão que agridem a razão e ofendem qualquer tentativa de ser minimamente inteligente. É isso mesmo, por mais que o marketing eleitoral, em estreita aliança com a publicidade, tente se defender ele não abdica de fórmulas absolutamente irracionais para conseguir o voto do eleitor. E isso vale para qualquer partido, não só para o PT.

Mas, passada a eleição vem sempre a realidade e, com ela, outras obrigações e comprometimentos não mais somente com os simulacros. É aí que surge outra afronta à razão: o cinismo. Vivemos o império dos cínicos. Mas, será que sou capaz de duvidar que em 2014 o PT pode fazer a mesma coisa? Nem em brincadeira em duvido. Em política, tudo, absolutamente tudo é possível, já que não estamos no terreno da racionalidade. E essa desconfiança serve para todos.

Mas, com o PT é muito interessante, afinal, estamos diante de um caso de pra esquizofenia, de dissociação com a realidade. O PT teima e ainda vai teimar por algum tempo em dizer que faz uma coisa bem diferente do que realmente faz. Há uma dissociação muito forte entre sua discursividade e sua ação política. Isso se destaca no PT por ter sido um partido que se construia para, exatamente, não fazer isso. Mas fez, e está fazendo muito bem. É esta dissociação entre discurso e ação que torna as falas de lideranças do PT algo como que delirantes, sempre dispostas a acusar um “golpe” em qualquer crítica recebida.

Seria muito bom alguém dedicar-se a averiguar o que, de fato, significa esta palavra “golpe” para o PT, pis ela é a preferida. Sempre que alguém faz uma crítica à ação do partdo ou do governo lá vem a defesa: “isso é golpe”!!. Ora, por que tanta dificuldade em lidar com a crítica? Seria isso, fruto de um ressentimento? de uma sensação de que o país deve algo ao PT e agora ele pode conseguir tudo e do jeito que quiser.

Já confiei no PT e já tive esperança, agora não confio mais e só tenho receios. Isso vale para a política em geral.

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Independente do que venha a acontecer com Palocci, que pode muito bem ser… nada, o que sobra destes momentos críticos é sempre a revelação de uma estremecida relação entre o Executivo e o Legislativo federais. Parece não ter sido outra, desde a redemocratização, a relação entre os dois poderes marcada por trocas fisiológicas que, alguns teóricos denominaram de Presidencialismo de Coalizão. Ou seja, incapaz de conseguir maiorias suficientes, o executivo se vê obrigado a montar bases de apoio através de coalizões partidárias no Congresso Nacional.

O caso Palocci não fugirá à regra. A questão é que, agora, o principal “adversário” está na vice-presidência, o PMDB. Desde o episódio do mensalão, quando Lula buscou apoio no PMDB e encontrou em Sarney seu principal aliado, que o PT caminha cada vez mais para uma espécie de “rendição” ao aliado.

Antes, no início do governo Lula a estratégia montada por José Dirceu foi a de fragmentar os partidos no Congresso a ponto de criar uma relação muito perigosa com os pequenos partidos. Uma relação que passava mais pela dependência pessoal de cada parlamentar que por acordos de lideranças. A situação levou ao escândalo do mensalão. Uma enorme pretensão do PT que, incapaz de constituir alianças, quis forçá-las na marra, ou sob a pressão de cargos e dinheiro.

Após esta experiência, passou-se a outra forma de relação. Deixou-se os inúmeros pequenos partidos em segundo lugar e optou-se por uma relação mais estreita com um grande partido, no caso o PMDB. O resultado concreto foi a divisão do governo.

Mas, como o PT ainda não aprendeu a dividir governo terá sempre uma conta a pagar. E, passada a lua de mel do início do governo Dilma, esta conta já vem sendo cobrada e o “preço” aumenta a cada crise de corrupção.

Não é só o Palocci que tem seus rendimentos supervalorizados no mercado, o PMDB se valoriza a cada escândalo do PT. A bola da vez agora era frear qualquer investigação no Congresso e o PMDB mostrou-se essencial para isto. Não sem rusgas, evidentemente.

Fica claro que estamos lidando com o pior dos mundos. Um presidencialismo fraco, impotente, que só negocia sob acordos fisiológicos. E, de outro lado, um Congresso que parece só funcionar à base de cargos e liberação de verbas.

Como venho insistindo, Sarney pode ter ampla rejeição, e pode até ser visto como o exemplar mais claro da política fisiológica e clientelista. Mas é desta água que o PT bebe. E por que? Simplesmente pelo fato de que se Sarney é rejeitado pela opinião pública, ele é amplamente operacional, funcional, dentro do Congresso. É uma peça chave que manobra, como ninguém, os meandros daquela instituição. Uma espécie de maquinista que o PT não pode dispensar, principalmente agora que todo seu capital ético já foi pro espaço mesmo. A questão é manter-se no poder.

Precisamos reinventar lideranças. Lula e o PT já não são novidade, nem mesmo oferecem qualquer esperança. Mas, não se trata simplesmente de novidades na política, se trata, principalmente, de incrementar o poder da opinião pública para que estas novas lideranças venham a sentir certo constrangimento diante de possíveis ilícitos. Não há mesmo muito o que fazer… mas, viver de esperança ninguém vive. É preciso sempre… agir.

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O dia começa com o anúncio de que o Ministério Público Federal decidiu investigar os ganhos de Palocci. De acordo com o Procurador da República José Rocha Júnior, não foram apresentados PUBLICAMENTE justificativas que permitam aferir a compatibilidade dos serviços prestados com os vultosos valores recebidos (Folha, 27/05). Tal posição contrasta com as declarações da presidente Dilma de que Palocci JÁ estaria dando as devidas declarações. Há um conflito aqui, o que para a presidente é razoável, para o Ministério Público não é, ou seja, a pendenga se dá em torno do tema da “publicização”. Palocci precisa vir à público. É na esfera pública que a democracia se consolida. É na esfera pública que o homem público, obrigatoriamente, presta contas de suas atividades. Portanto, dizer que, por estar conversando com senadores, ou seus partidários, Palocci já estaria fornecendo explicações não convence a ninguém.

O fato é que este é o primeiro constrangimento por que passa Dilma. E, ontem, assistindo às suas declarações na TV percebi o quanto aquele semblante tranquilo do início do governo e da fase “Ana Maria Braga” havia desaparecido. Estava irritada, impaciente. Seu tom de voz era a de quem não estava ali para ser contestada, ou seja, esta é a Dilma que todos sempre conheceram e que, na hora que a corda estica ela se enfurece. Razoável, na posição que ela ocupa.

Ainda em sua declaração, nos disse esperar que a questão não seja politizada, e usou como exemplo as ligações entre os valores liberados pela Receita Federal para a W Torre e as contribuições desta para sua campanha presidencial. Ora, toda esta ligação pode até se revelar frágil, mas que é insinuante é. Como não ficar atento e com os olhos bem abertos para uma enorme liberação de recursos seguida de uma bela doação? É mais do que natural querer explicações.

E por que o governo não gosta de explicar-se, se é natural dos deveres do homem público essa obrigação? Rola pelo Brasil a algum tempo a ideia de que qualquer crítica ou denúncia que se faça ao governo seja uma “conspiração preconceituosa e eleitoreira das elites oposicionistas” (Ufa!!… acho que resumi em poucas palavras).

Isso é um sinal de arrogância de quem está no poder. Um sinal de prepotência por imaginar ocupar uma posição inabalável e acima das leis. Poderia até dizer que revela um tremendo “elitismo” (quando busca privilégios por acreditar-se acima da lei), um “golpismo” (quando desmerece o contraditório que é típico da democracia) e “eleitoreira” (quando revela-se oportunista para a manutenção no poder).

Ou seja, é tão fácil voltar as acusações do governo contra si mesmo. Só é preciso um pouco de atenção e disposição para levar às últimas consequências na defesa dos espaços democráticos.

O que houve com o PT em sua história? Onde foi parar todo aquele suposto capital ético? O que o poder significou ao PT? Não era para o PT ser igual a todo mundo, mas se tornou, e talvez pior, pois não só não se constrange com as críticas, como as desqualifica violentamente. Isso é uma atitude muito perigosa à democracia. O PT não se sente submetido às regras, aos deveres, se sente melhor, se sente mais capaz.

Por que? Seria o caso de se analisar o quanto existe de ressentimento aí, ou se é só oportunismo mesmo. O fato é que, se a sociedade brasileira quiser avançar, vai ter que fazer isso independente de grande parte de sua classe política e partidária. Vai ter que manter-se bem forte nas redes sociais, manter-se permanentemente conectada e de olho no cotidiano do poder.

O crescimento econômico e a ascensão de determinados grupos sociais não pode servir de pretexto, nem para governantes sepultarem a democracia, nem para se deixar de lado a atenção com a política.

E a bola da vez é o PT. Tem que ser observado em detalhes. Principalmente na sua capacidade discursiva, pois é na manipulação de um susposto capital ético somado ao crescimento econômico que encontra forças para negar vários de seus deslizes na condução dos negócios públicos. E isso tem sido tolerado. Mas, até quando?

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Em entrevista (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po0404201111.htm) o filósofo Marcos Nobre, da Universidade de Campinas, fala de uma “peemedebização” estaria em andamento no país, ou seja, algo que combina “adesismo” e “lógica do veto”, onde fazer política significa mais vetar que formular propostas.

O filósofo citou como exemplos desse processo a criação do PSD e a decisão do STF sobre a Lei da Ficha Limpa, tudo fruto de uma “cultura política peemedebizada”, uma cultura política que evita o confronto aberto e opera com uma lógica de veto… Não há um discurso positivo, não há uma tentativa de formar maioria e partir para o confronto. O que há é o veto e a tentativa de contornar os vetos. Há um bloqueio das discussões públicas que dissocia a política da sociedade. Trata-se de um modelo que se reforçou em muito após o mensalão.

Qual a relação com o mensalão? Com a crise, PT e PSDB perderam consistência após Lula ter se afastado do modelo polarizado em prol de um centro difuso. A diminuição do confronto permitiu que a lógica do peemedebismo retomasse um papel central. O fim da polarização é a vitória do peemedebismoO problema de Dilma é que ela recebeu um passivo político quase inadministrável… Ela recebeu uma quantidade enorme de acordos feitos por Lula, e todos muito generosos. São acordos com centrais sindicais, partidos, empresários, mercado etc. Mas Dilma não tem como manter todos. Há um limiteSe todo mundo está dentro e se todo mundo pode vetar propostas, o resultado é a paralisia.

E qual a solução para Dilma? Ela terá que mostrar que não há espaço para todo mundo e negociar acordos a um preço mais baixo. Dilma tem um “excesso de adesão” e isso é um fator limitador para os interesses de Kassab e do PSD, maior  expressão do peemedebismo. É a banalização da política. É um partido com discurso anódino, sem consistência, que gosta de se afirmar sem posição ideológica definida.

Uma boa questão, nesse momento, seria: Quais as condições e possibilidades de uma afirmação da oposição no cenário político? O primeiro passo é a constituição de um discurso. E isso exigirá uma leitura muito “fina” da realidade, pouco apegada aos fatos superficiais e episódicos e com mais capacidade de enxergar aquelas limitações que estão ocorrendo por baixo e que, mais à frente, serão a marca da gestão de Dilma. Se a oposição imagina que poderá ir se firmando em torno dos fatos criados pelo governo vai dar com os burros n’água. Uma leitura fina da realidade e um discurso consistente podem ser fundamentais para o médio prazo. 2012 está bem perto para já ir testando algo, mas para isso, é preciso começar. Não podemos esquecer que esse processo de peemedebização é fruto de um movimento feito por Lula no sentido do centro político, mas também é reflexo de uma descaracterização maciça do conteúdo da oposição no país.

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Dados de pesquisa CNI/Ibope e divulgados agora a pouco pelo UOL, apontam a presidente Dilma em franco crescimento de popularidade (http://noticias.uol.com.br/politica/2011/04/01/dilma-supera-lula-e-fhc-em-aprovacao-de-inicio-de-governo-diz-cniibope.jhtm), superando ex-presidentes numa comparação com o mesmo período. Ela teria 56% de ótimo e bom (em 1999 Fernando Henrique tinha 41% e Lula, em 2003 tinha 51%).

É claro que, em tais dados, está presente todo o clima positivo do país, que pode ser visto como uma herança do governo anterior, mas a cada momento que passa Dilma vai tendo maior responsabilidade sobre sua própria popularidade, e o governo Lula vai se tornando um “ex-governo”.

Para o gerente executivo da CNI, Renato da Fonseca, o índice de aprovação de Dilma se deveria ao seu “bom relacionamento” com Lula. Não sei exatamente o quanto esta afirmação reflete a realidade, pois embora não tenha surgido nenhuma rusga entre os dois, Dilma se posicionou de forma muito específica em várias situações. O que me parece mesmo é que a presidente está ganhando personalidade, e não por estar colada em Lula, justamente o contrário: está ganhando personalidade…própria.

Na falta de mais dados, evidentemente, sobra especulação. Mas, acho que é muito válido se trabalhar com a hipótese de que a presidente ainda vai crescer bem mais, mas principalmente por sua imagem (que melhorou muito após eleita) e por seus posicionamentos (mais afeitos à democracia, ao controle de gastos públicos e aos direitos humanos). É esperar para ver como ela se sairá diante do possível crescimento da inflação. É fundamental acompanhar de perto este tema.

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É interessante como a recusa de um convite pode ser tão elucidativa. O ex-presidente Lula não compareceu ao almoço oferecido para o presidente norte-americano e se ouviu falar de todo tipo de justificativa por parte dele. Nenhuma fez sentido, talvez pela razão última ser de ordem muito pessoal. Quem sabe?

Enfim, o fato é que muito foi conversado. Dos demais ex-presidentes praticamente não se ouviu nada, mas de Fernando Henrique, que sempre foi ouvido com atenção, se ouviram comentários dando conta que estaria ocorrendo mais “civilidade” por parte do governo Dilma. Essa fala de Fernando Henrique foi muito significativa e tem um poder de síntese extraordinário (e de provocação, é claro!).

A “civilidade” é algo que sempre foi trazido à tona diante da necessidade de se estabelecer uma clara diferença em relação aos “bárbaros”. Então, o que o ex-presidente Fernando Henrique quis, de fato, dizer? Estabelecer uma diferença, não só uma simples diferença, mas uma diferença marcante e positiva em favor do governo Dilma, confrontando-o diretamente com o governo Lula. Isso é que chamo de uma “cutucada intelectual”.

O fato é que, acostumado a se utilizar da “comparação” para medir o seu governo em relação ao de Fernando Henrique, Lula está virando alvo de comparações, só que em posição diferente, ou seja, ele agora é o “passado”. Mas, insisto, qual a razão de Fernando Henrique fazer esta comparação com base na “civilidade” de Dilma?

Não deixa de existir aí aquilo que conhecemos bem como uma espécie de “reconhecimento” do governo Dilma. Como se o governo Dilma estivesse recebendo não só um agrado, mas um sinal claro de que “está indo bem”, algo como uma “aceitação intelectual”, uma “benção”. Este talvez sempre tenha sido o lado “arrogante” que sempre permeia o termo “civilidade”, agora colado à Dilma. Mas, tudo bem, Fernando Henrique é um intelectual e sabe muito bem como usar as palavras, principalmente aquelas que, de um lado, elogiam, de outro condenam, e de outro ainda, abençoam.

Mas, além deste significado de “aceitação” por parte da elite da sociedade, o termo civilidade inspira outras observações. Ele demarca, como disse, um território, agora entre Dilma e Lula. É justa essa demarcação? Acredito que sim. Embora com muito pouco tempo de governo já existem “sinais” de que o governo Dilma terá seu estilo próprio. E aí pode estar residindo a razão última para explicar toda essa diferença.

A última pesquisa Datafolha já mostrou que a popularidade de Dilma foge àquele simplismo eleitoral que marcou as duas últimas eleições presidenciais, ou seja, ela avança bem em todos os grupos sociais, quase de forma idêntica. Por outro lado, seu comportamento com relação à pressão dos sindicatos (quando do aumento do salário mínimo) e sua postura em recusar-se mediar a situação líbia (quando solicitada por Kadafi) foram sinais claros de “civilidade”. É neste sentido que Dilma vai se transformando em uma governante muito mais “palatável” para o conjunto da sociedade.

O que mudou, então? A postura de Dilma contrasta com o estilo “nós x eles” que dominou o governo Lula desde após o escândalo do mensalão. Foi a partir dali que, qualquer tentativa de um governo de consenso foi dissipada. Lula governou muito mais tempo com base no “nós x eles” e isso, inquestionavelmente deixou marcas, quase cicatrizes. Foi um discurso duro, de sobrevivência após o escândalo do mensalão, e que se revelou eleitoralmente fantástico para sua reeleição e para a eleição de Dilma.

A questão é que, pelo seu estilo, Dilma talvez não saiba continuar reproduzindo o “nós x eles”. Foi isso que Fernando Henrique quis dizer quando falou em “civilidade”. Há claras diferenças de estilo, pelo menos por enquanto. É como se Dilma não desse sinais de manter viva a dinâmica do “conflito” sempre bem utilizada por Lula.

Por seu lado, o ex-presidente Lula, dois dias depois, em jantar com a comunidade árabe, classificou como “hilariante” o comportamento da oposição em elogiar Dilma por ser “diferente” dele. Lula disse que se Obama falou bem do Brasil foi porque ele, Lula, pegou o país de um jeito e o transformou numa potência. E, aproveitou para negar qualquer continuidade em relação ao governo Fernando Henrique (ora, se a política econômica é a linha mestra de um governo, é claro que houve continuidade), além de dizer que Dilma sim é a sua continuidade.

Lula, no jantar, também criticou Obama, dizendo que a cara do terror não é a de um latino-americano, nem a de um árabe, e sim norte-americana. Mas, em seu discurso também disse que tinha muito orgulho em ter passado o governo a uma mulher que foi “perseguida e torturada” (onde está a mãe, doce e meiga, do PAC?), sinal que prestou bem atenção no discurso de Obama no Teatro Municipal e em seus elogios ao passado de Dilma.

Lula vai ficar assim por algum tempo. Ele vive um momento de encontrar o seu espaço. Seu novo espaço, que já não é mais o de presidente, nem de centro das atenções. É na busca por este novo lugar que ele procurará manter, de forma integral, a ideia de que seu governo “não acabou” e que Dilma é um prolongamento. Realmente, Lula não está trabalhando com a possibilidade de seu governo ter passado, de existir um “pós-Lula”, como o ex-ministro Malan já havia anunciado em artigo no estadão em 13/03/05.

É interessante, mas, para Lula, seu principal inimigo neste momento não é ninguém da oposição, mas o “estilo” de Dilma. Se ela continuar assim, atenua a dinâmica conflitiva embutida no discurso do “nós x eles” de Lula e transforma Lula em “passado”, e ele terá que aprender a viver como… Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique, representando o passado recente do Brasil e interferindo na politica sempre que necessário. Será que ele aguenta? Improvável. Ainda teremos bons capítulos nessa novela, cujo capítulo mais atual intitulou-se “civilidade”.

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Na mais atual pesquisa Datafolha constata-se que é alto o nível de popularidade de Dilma, que alcança 47% de ótimo e bom. Um índice superior a de todos os seus antecessores, neste mesmo período de governo. Mas, a pesquisa traz alguns dados bem interessantes:

1) Comparada à Lula, Dilma, na opinião do entrevistados favorece mais aos “políticos” (23%) enquanto Lula favorecia mais aos “trabalhadores” (31%). Fica evidenciada a muito mais forte identificação de Lula com os trabalhadores;

2) No que diz respeito aos maiores problemas do país, hoje se aponta a “saúde” (31%) e a “violência” (16%), enquanto com Lula eram o “desemprego” (31%) e a fome/miséria (16%). Aqui também mais evidenciada a identificação de Lula com estas questões, além de existir um componente conjuntural (naquele momento aquelas questões eram muito mais fortes que hoje);

3) Dilma continua, como Lula, sendo vem avaliada no “Nordeste” (50%), mas nas outras regiões está muito próxima desse índice, ao contrário de Lula que sempre se distanciou mais no Nordeste;

Me parece que a percepção do eleitor aponta na direção da seguinte avaliação: Lula elegeu Dilma, ponto. Dilma é mais técnica e gerente, ponto. As prioridades com ela serão outras, ponto. E é essa sua capacidade de gerenciamento com menos paixão e identificação com um ou outro setor específico da população que mantém uma alta expectativa com relação a seu governo, indistintamente, no Norte ou no Sul. Essa situação a aproxima de uma maior simetria eleitoral, bem diferente de seu antecessor que, como Collor, dividiu o Brasil em dois, sendo que Lula experimentou os dois lados. Num momento foi amados pelos setores de classe média e mais organizados, noutro foi amado pelo setores sociais mais pobres e desorganizados. Dilma parece superar este “simplismo eleitoral” neste momentos iniciais de mandato.

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Em artigo no Estadão deste domingo, no “espaço aberto” (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110313/not_imp691246,0.php), Pedro Malan comenta algumas coisas acerca do desconforto embutido na expressão “pós-Lula”. Ele nos diz que Lula não é mais presidente, certo? Ele nos diz que muitos petistas vêem na expressão uma ironia, uma insinuação de que o ex-presidente teria que “sair da cena política” e vestir seus pijamas (como muito já foi recomendado a Fernando Henrique). A expressão também é mal vista porque levaria a se excluir Lula das próximas disputas presidenciais. Por fim, a expressão é criticada por ser uma tentativa de “desconstruir” o governo Lula e trazer à tona possíveis legados problemáticos.

Malan continua e diz que Dilma começou seu governo marcando bem algumas posições: na liberdade de imprensa e na política externa, por exemplo. Mas, sua principal questão será mesmo lidar com uma pesada herança deixada por Lula: a vasta expansão dos gastos públicos. Não há nada de errado na análise do ex-ministro Malan e os passos de Dilma na condução do “gerenciamento” das contas públicas indicam que sua posição está correta. Mas, o que isso, de fato tem a ver com a rejeição do termo “pós-Lula”?

É certo que Lula não é mais presidente. Também é certo, entretanto, que ele não vestirá pijama algum e também é muito certo que Dilma estará sempre numa corda bamba, se equilibrando entre o necessário “gerenciamento” das contas e a preservação da herança do governo Lula. Nisso, ela terá que demonstrar competência. Mas, por que a impaciência com o termo “pós-Lula”. Ora, é evidente que, para muitos, o lulismo sofreu apenas uma “interrupção temporária”, uma espécie de concessão à democracia que ainda não permite 3 mandatos seguidos, pelo menos por aqui. Lula será sempre um fantasma pairando por sobre o governo Dilma.

No início, ela sentirá saudades dele, como já demonstrou. Mas, e mais à frente? Se tiver que tomar medidas mais fortes na economia o que dirá? Que diagnóstico fará? Que discursividade usará? Fará algum tipo de relação com o governo Lula? Dilma foi preparada e colocada no poder para ficar 4 anos, isso todos sabem. Por isso, o termo “pós-Lula” soa como algo incômodo, pois ele surge como uma revelação de desejos inconscientes e inconfessados. O lulismo ainda não é algo plenamente configurado na cena política brasileira, ainda está no nível do desejo. Com o tempo poderá vir à superfície e revelar-se. Por enquanto, é um mal-estar.

Achei o artigo de Malan instigante, primeiro porque o tema do lulismo me interessa, depois, porque é da ordem do cotidiano. É um debate que gostaria de ver na cena pública. Agora, só mais uma opinião pessoal. É claro que, quase sempre, o termo pós-Lula é usado em termos irônicos e digo que não gosto de usá-lo, não por não querer enfrentar uma desagradável herança do governo Lula, mas simplesmente porque acho que esse “pós” ainda não chegou, de fato. Lula está fora do governo, mas, como disse, paira no ar como o candidato natural do PT à eleição já em 2014. Ou Dilma foi colocada na presidência para ficar 8 anos?

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Recentemente Dilma esteve em reuniões com sindicalistas e um dos temas que sobressaiu das conversas é a possibilidade de flexibilização na cobrança da contribuição sindical, que passaria a ser legítima a partir de aprovação em assembléias com os sindicalizados. Este é um exemplo da “tensão” e da “turbulência” que tem marcado a relação de Dilma com as centrais sindicais neste início de governo. Logo em seguida, vemos movimentos de Alckmin e de Aécio no sentido de se aproximarem de lideranças sindicais, inclusive convidando-as a participarem de cargos no governo. Ora, daí três coisas me chamam a atenção imediatamente:

1) A “tensão” de Dilma com o sindicalismo é apenas mais um movimento no sentido da flexibilização daquele monopólio político levado a cabo por Lula, que “abraçou” alguns movimentos sociais e “cuidou” deles. Agora, em uma nova fase de “reorganização” da máquina do Estado tais relação paternais podem começar a ser questionadas. Dilma pode estar assumindo o papel de “mãe suficientemente boa” (Winnicott), ou seja, aquela que não deixa de dar atenção a seus filhos, mas não impede que eles cresçam buscando alguma autonomia. É essa autonomia que as centrais sindicais devem se acostumar. O que Dilma faz, nada mais faz que ir em direção à uma maior flexibilização das relações entre capital e trabalho (tema no qual o Brasil é campeão em sustentar tradições). Não quero levar esta discussão para o “neoliberalismo”, mas Dilma é ou não a grande responsável pelo maior “gerenciamento” do capitalismo brasileiro na atualidade? E o que ela está fazendo é cuidar mais da casa. Pelo menos é isso que deixa transparecer. É claro que esta “tensão” não se transformará em “colisão”, é apenas uma “discussão de relação”.

2) O “namoro” do PSDB com lideranças sindicalistas é desprovido de um verdadeiro “afeto”. Uso esta linguagem somente porque falei de “namoro”. Mas, o que, de fato, o PSDB tem a ver com o sindicalismo? Que tipo de namoro pode surgir daí? Me parece que, somente, uma relação baseada em interesses imediatos e oportunistas. Representaria algo significativo para o partido e a oposição no médio e longo prazo? (estou falando em eleições) Não acredito. Isso não significa que o partido ou a oposição não tenham uma posição e propostas em relação ao sindicalismo, mas querer um “namoro” a esta altura do campeonato… soa como cômico. O que o PSDB está fazendo é aproveitando um momento de “discussão de relação” de Dilma com o sindicalismo para se insinuar e colocar sua sedução para funcionar.

3) É de se perguntar, legitimamente, qual o papel do sindicalismo na política atual. Como a sociedade enxerga o sindicalismo? Como os próprios trabalhadores enxergam o sindicalismo? Como a sociedade enxerga o sindicalismo? Como uma representação legítima? Como “máquina” e aparelhamento? Honestamente, não vejo razões que transformem o sindicalismo em uma “noiva” a ser tão desejada assim. Falo isso olhando para a política atual e em como a sociedade está se comportando.

Seria um simples “affair” do PSDB… ou um caso mais explícito de “relação a 3”? Não vai dar futuro! O que não exclui ganhos oportunistas e imediatistas, como dissemos. Não seria o momento do PSDB se posicionar nacionalmente com relação à estas questões espinhosas sempre que surgissem? O dia a dia da política acaba atrapalhando.

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