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Posts Tagged ‘Discurso’

Não é uma tarefa fácil definir um estilo de governar para a presidente Dilma nestes primeiros cem dias de mandato. É um desafio muito mais colocado pela imprensa que pela análise política. O que falar, então, do estilo de governo de Dilma nestes momentos iniciais? O traço fundamental é de continuidade com o governo anterior? Sim. Mas, existem peculiaridades quanto à postura política e sua imagem.

Em termos de imagem, Dilma busca uma proximidade com o eleitor de forma muito mais sutil e natural. Seus sorrisos são na medida certa e seus posicionamentos são contidos, deixando transparecer uma honestidade de intenção. Isso contrasta com o estilo exuberante de Lula em ser o centro das atenções a partir de uma postura melodramática, evidenciando, por vezes, uma “hipersensibilidade” e um “histrionismo” que deixavam margem para o oportunismo e superficialismo. Dilma, ao contrário, está revelando saber combinar bem, em dose certa, o estilo “durona” com pitadas, uma aqui outra ali, de sensibilidade.

No que diz respeito à postura política a ênfase em passar uma imagem de “gerenciamento” dos problemas já vinha sendo trabalhada desde as eleições passadas e, sem dúvida, com algumas heranças deixadas pelo governo Lula (gastos públicos exacerbados), será imprescindível que ela coloque em marcha esse “gerenciamento”. Se Lula parecia eternamente em férias ou flutuando sobre os problemas, Dilma terá que mergulhar neles. Nesse sentido, seu governo, ao que tudo indica, e contrariando muitas expectativas, será muito menos carregado de tons ideológicos, como ela mesmo já tem mostrado em sinais de “aproximação” com a oposição e no endurecimento de certas negociações com sindicatos e sua base aliada.

Dilma não seria eleita sem a ajuda da popularidade de Lula, mas ela não carrega consigo aquela enorme popularidade do final do governo anterior. Nem poderia, pois não é recomendável se comparar índice de popularidade (avaliação de governo) com intenção de voto. Talvez nem mesmo Lula tivesse uma vitória tão folgada em 2010. Isso significa, então, que se Dilma está “surpreendendo” neste momento não necessariamente isso se transformará em apoio eleitoral ao PT em 2012 ou mesmo à sua reeleição em 2014. Nesse caminho existe um obstáculo a ser vencido: reconquistar a classe média. E, convenhamos, uma coisa é se estabelecer um contato direto com os setores beneficiários do programa Bolsa Família, outra coisa é abrir um canal direto com a classe média. São dois grupos sociais distintos com visões distintas da política, e aspirações diferentes com relação à política.

Neste momento, é oportuno lembrar que este setor médio da sociedade está em franco crescimento e carente de maior identificação política e partidária. Tradicionalmente, nas últimas eleições presidenciais, esteve ao lado da oposição, em torno do PSDB. Mas, o PT e Dilma deixarão isso sem a atenção devida? Não acredito, e isso impõe um ritmo de mobilização por parte da oposição também de muita atenção. Este setor médio, nos últimos tempos, tem se agitado exclusivamente em função de denúncias de corrupção. É preciso, então, pensar-se em modos alternativos de mobilizá-lo, com uma identificação mais profunda.

Muito do sucesso de Dilma, me parece, estará em dois aspectos: na capacidade de impor sua postura gerencial sobre o Estado e a Economia, e na capacidade de mostrar-se politicamente atraente para a classe média. E, isso me leva a uma constatação, ainda muito precoce, mas que não me furto a dizer: a próxima disputa presidencial vai se dar em torno de temas que implicam na reorganização do Estado e sustentação da economia. E, nesse sentido, não vejo como escapar à polarização que já vem se dando entre o PSDB e o PT, os principais partidos do país, os que possuem os melhores quadros. A eleição para a prefeitura de São Paulo, em 2012, será um belo teste para as pretensões do PT, e para a capacidade de resistência do PSDB. Assim, como em 2014 a posição se inverte.

Preocupam, portanto, aos governistas, as notícias sobre a volta da inflação, a questão cambial, o freio na expansão do crédito, e a morosidade de não se saber bem o que fazer com tanto apoio disponível no Congresso Nacional, afinal, como o PT explicará que não tomou a iniciativa de realizar as tão necessárias reformas estruturais com tanto apoio disponível no Congresso Nacional.

Do lado da oposição, especialmente do PSDB, o desafio é imenso, gigantesco, pois com a chegada do PT ao poder o pragmatismo governamental foi levado ao extremo. Depois de herdar uma conjuntura econômica dos anos Fernando Henrique e de implementar um “monopólio discursivo” da política, Lula fez do pragmatismo a regra fundamental. O desafio estar em oferecer uma alternativa a isso aí. Talvez a questão esteja mesmo, neste momento, em mirar nos flancos deixados em aberto: os problemas na economia. Afinal, se com Lula a ordem era gastar, com Dilma o objetivo será controlar.

Nesse aspecto, o discurso do senador Aécio foi estratégico: sem uma coloração ideológica forte, mas tecnicamente incisivo. A questão é ver como o PT se comportará no governo em uma conjuntura que combina a ausência de um líder carismático, e uma menor capacidade de gasto.

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Aécio Neves fez seu primeiro discurso hoje no Senado, mas para alguns não correspondeu às expectativas que causou na véspera. Se isso é um fato, é porque deve existir alguma forte ansiedade por uma oposição mais presente, ou, ao menos, por uma nova liderança de oposição. De qualquer forma, é uma ansiedade e precisa ser melhor controlada.

Após relembrar suas conquistas na Câmara dos Deputados já foi logo dando o tom de seu posicionamento. Não confundo agressividade com firmeza. Não confundo adversário com inimigo. Nada de novo, afinal Aécio, mesmo nos momentos mais críticos do governo Lula sempre manteve certa distância de maiores críticas. Aécio sempre se mostrou muito tolerante e é isso que continua pregando. Afeito aos debates e convergências, segue muito bem a escola mineira de seu avô Tancredo. Ele não vai abandonar esta escola. E é melhor que não o faça, pois seria uma descaracterização boba.

Depois de demarcar seu território e forma de atuação fez a “recuperação” histórica do Brasil recente. Lembrou que “nossos adversários” não estavam com Tancredo e a grande aliança democrática, nem com Sarney, nem com Itamar, mesmo com o Brasil sob risco de governabilidade. Em seguida, também lembrou que recusaram o Plano Real e foram contra a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Em seguida, rememorou o governo Fernando Henrique e a estruturação dos primeiros programas federais de transferência de renda, todos criticados como políticas assistencialistas e de perpetuação da independência. Em seguida, arrematou: Faço essas rápidas considerações apenas para confirmar o que continuamos a ver hoje: sempre que precisou escolher entre os interesses do Brasil e a conveniência do partido, o PT escolheu o PT . Nesse momento, Aécio nomeia seu adversário, o que é fundamental num discurso que pretende estabelecer mínimas fronteiras. Sim, porque, por mais que Aécio esteja movido pela sua escola mineira, ele precisa demarcar uma posição que é a de, gradativamente, líder de oposição. E isso só com o estabelecimento de algumas posições discursivas. Se Aécio sempre caracterizou-se por uma contemporização com relação ao PT, parece mais disposto a começar a apontar as divergências, ainda que tímidas. É um avanço, sem dúvida.

Quando enalteceu o governo Lula foi para dizer que ele soube manter a política econômica do governo anterior e, sobre Dilma disse que o Brasil precisa de uma “choque de realidade”, principalmente voltado para a atenção ao ajuste fiscal, ao risco de desindustrialização de setores da economia, reforço da infra-estrutura e o controle da inflação. Para que isso seja buscado, disse que a postura da oposição deve seguir três orientações: Fiscalizar com rigor; resgatar o princípio da Federação no Brasil; e aproximar-se dos diversos setores da vida nacional.

Já finalizando falou algo que pode revela bem a característica de sua oposição: anunciar iniciativas concretas ao governo em torno das grandes reformas, pois não dá para somente esperar do governo. Afinal, a oposição, segundo Aécio deve organizar seu exercício em torno de três valores: coragem, responsabilidade e éticaCoragem. Para resistir à tentação da demagogia e do oportunismo. Responsabilidade. Não podemos cobrar do governo responsabilidade se não a tivermos para oferecer ao país. E Ética. Não só a ética que move as denúncias. Não só a ética que cobra a transparência e a verdade. Mas uma ética mais ampla, íntima, capaz de orientar nossas posições, ações e compromissos, todos os dias.

É um discurso que não tem e não terá, jamais, apelo junto a setores muito pobres a não ser que seja “traduzido” em alguns poucos e oportunos sentidos. Mas, é um discurso de classe média, justamente o setor social que mais tende a crescer e que politicamente está mais desguarnecido à espera de lideranças, depois que o lulismo a abandonou. Cabe lembrar que aqueles setores que o governo Lula ajudou a alavancar economicamente e com um discurso populista, estão situando-se em uma nova posição social e isso certamente influenciará a direção que seu olhar e seus interesses se voltarão. Talvez aí esteja a oportunidade para a oposição voltar a marcar posição, após tantos anos de “indefinição discursiva”.

Bem, o fato é que Aécio parece ser o “cara” da oposição em 2014. Aliás, deveria mesmo ser o cara. Por enquanto sua estratégia está correta, não há mesmo que fazer reinar a intolerância. O momento é de marcar posições, quebrar com a hegemonia do discurso politicamente dominante, mostrar que existe “algo a mais”, esquadrinhar a classe média, renovar a postura discursiva e estabelecer, sempre, um contraponto, ao governo Dilma, fazendo-o reportar-se não somente à mídia, mas à lideranças da oposição. Isso vai estabelecer fronteiras e a população poderá ver que existe algo a mais, uma alternativa.

Enfim, se for por aí acredito que a oposição sai dessa situação paralisante. Mas, é um trabalho de médio prazo. Uma guerra de trincheiras. Aécio pode não ter o “clamor” discursivo, mas é o cara que pode se colocar como alternativa ao PT. Em si, ele já significa alguma renovação. O necessário é continuar, avançando para um novo discurso e para uma nova postura. 2014 será bem mais interessante.

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Dilma e a educação

Neste domingo, a Folha de S. Paulo publicou um artigo (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2002201107.htm) da presidente Dilma e gostaria de fazer apenas umas rápidas considerações. A presidente está correta quando diz que a noventa anos o país era oligárquico e que a questão social era “caso de polícia”. Segundo a presidente, ganhos econômicos e sociais recentes permitem uma renovada confiança no futuro. Mas, é preciso ter cautela, ou então ser mais ousado.

O que se tem feito, nos últimos tempos, é a manutenção de uma política de estabilização econômica somada a distribuição de recursos sociais para os setores mais carentes. Além disso, a conjuntura econômica internacional tem permitido uma expansão econômica que mobilizou crescentes exércitos de mão-de-obra menos qualificada. Sem dúvida, são passos interessantes, mas para onde levam?

Não podemos fechar os olhos e comemorar. Falta muito, o principal. Ou seja, aquilo que poderá permitir que realmente se aproveite as janelas de oportunidade que surgem no mercado internacional. É a hora de se falar de educação de qualidade. Sem um projeto como este nenhum país conquistou um lugar ao sol. E este debate não existe no setor público brasileiro. É preciso que se ultrapasse essa onda de entusiasmos com a expansão do mercado interno e se parta para soluções mais efetivas para o conjunto da sociedade.

Por enquanto, o que temos é o aumento de “consumidores”, resultado da expansão do crédito e de novos empregos, principalmente na classe C. O que precisamos, além de “consumidores”, é de “cidadãos”, e isso só se conquista com uma sociedade forte, educacionalmente falando. Não queremos simplesmente nos reunir numa praça pública para depor ou aclamar um presidente, mas, principalmente, usufruir de benefícios sociais e ter a clara noção dos deveres que uma sociabilidade civilizada impõe. Aí sim, dependeremos menos de “vontade política” de governantes.

A presidente está correta em seu diagnóstico e em sua aposta na educação, afinal, o crescimento econômico, por si só não nos levará a um patamar mais elevado. A educação sim. Ela nos permitirá fazer escolhas e tomar o rumo de nosso destino como cidadãos, e não somente como “consumidores”. É esperar, torcer, e acompanhar. Mas, é preciso mais que uma aposta, mais do que “vontade”, é preciso efetivamente criar condições. Sair do âmbito do discurso e ir em direção às políticas públicas.

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