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Posts Tagged ‘Fernando Henrique’

Depois da publicação do artigo do ex-presidente Fernando Henrique, e passada aquela fase imediata onde o “desentendimento” predomina e onde a inteligibilidade naufraga diante dos oportunismos ideológicos de discursos demagógicos e popularescos, começaram a surgir análises dotadas de alto significado. Uma delas foi a de Gaudêncio Torquato no final de semana passado e outra que gostaria de destacar foi o do professor Marco Aurélio Nogueira, de hoje (23/04), no Estadão.

O título do artigo, em si, já é revelador (Leituras Enviesadas) e o que o professor destaca é o seguinte: havia ali algo incômodo: uma provocação eficiente, uma verdade finalmente revelada ou a confirmação cabal de algo conhecido, mas que parecia esquecido. Mas, teria obtido ressonância onde seria mais necessário nesse momento, o PSDB? O professor também destaca que diante de tanta reação ficou difícil realçar seu núcleo argumentativo. E, quem ousou isso teria sido rechaçado pelo patrulhamento ideológico. E, como isso se deu? Quando o ex-presidente realça as novas classes médias como um largo setor social sem maior representatividade política (o que é um fato) foi imediatamente associado a alguém que tem horror ao povo. Independente de preferências partidárias, essa postura é infame e desonesta.

E quem liderou esse movimento de queimar o artigo de Fernando Henrique em praça pública? O ex-presidente Lula. Mas, por que Lula reagiria dessa forma a um debate proposto por Fernando Henrique, ainda mais que o debate não era diretamente com ele? Ora, qualquer passo que se dê em direção a uma tentativa de desconstrução do governo Lula, principalmente do ponto de vista ideológico, será tratado dessa maneira – onde tudo é resumido à “preconceito”, “horror ao povo”.

Está mais do que claro que Lula não se aposentou e deseja, o mais rápido possível, voltar ao poder e só o fará se reconquistar a classe média perdida, a mesma classe média que o abandonou quando do escândalo do mensalão e que ele mesmo a largou quando assumiu sua nova discursividade sustentada numa dinâmica conflitiva entre “nós versus eles”. Então, daqui pra frente o que veremos será uma sucessão de respostas intensamente ideológicas e rasteiras, visando desqualificar qualquer “insinuação” por parte da oposição, ainda que seja uma “insinuação” de ordem intelectual.

Ora, na mesma semana, Lula declara que, em São Paulo tem o desejo de conquistar os herdeiros do malufismo e do quercismo. O que é isso? Ou estou ficando maluco, ou existem dois Lulas. Prefiro ficar com a segunda opção. Existem dois Lulas, um que joga para a grande platéia, ou seja, para o “povão”, desqualificando qualquer debate e restringindo-o a uma meia frase incompreensível, descontextualizada e desrespeitosa, e outro Lula que joga o jogo da política, aquela política do poder a qualquer custo. E o pior, no dia anterior a proclamar este seu desejo pelos malufistas, ainda disse que o PSDB não tinha perfil ideológico.

Passado este momento inicial, caberá ao PSDB aproveitar o momento para discutir essa questão levantada pelo ex-presidente Fernando Henrique, afinal de contas, o que existe de mais concreto em tudo isso, como disse o professor Marco Aurélio Nogueira é que a classe média é um fato da vida e cresce na medida mesma em que se mostram eficazes as políticas sociais destinadas a reduzir a pobreza. O pobre que deixa de ser pobre pode até ser agradecido ao governo que o libertou, mas estará disponível para novas aventuras políticas pelo próprio fato de ter ingressado em outro universo social.

Talvez seja justamente isso que atormente Lula, ou seja, se deparar com um setor social que, agora, já sabe no que existem muitas coisas a pensar e levar em conta, além da “esperança”. O ex-presidente Lula tem todas as chances de voltar à presidência e de ter o seu lugar na História, mas precisa entender que a História não é feita exclusivamente por ele, e que a política merece um discurso mais sustentado na honestidade e não só na infâmia. É esperar e acompanhar o debate.

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Era mais do que previsível. Ontem mesmo, fazendo uma rápida avaliação do artigo do ex-presidente Fernando Henrique eu dizia dos riscos de a oposição começar a debater sobre algo que ainda não estava muito claro…e, pior, através unicamente da imprensa. Isso não é nada estratégico. O artigo sim, é estratégico em várias questões, e é um material que precisa ser lido e trabalhado para gerar ações partidárias e em bloco.

O que se viu foi, no primeiro dia de repercussão, não a voz de quem escreveu o artigo, mas comentários os mais dissonantes, e vindos da própria oposição. É claro que a imprensa está fazendo o trabalho dela, principalmente trabalhando em cima da “diferença”, mas a discussão da oposição não pode se dar dessa forma, tendo a imprensa como intermediário. É primeiro discutir internamente para depois fazer avaliações. Bem, não sou um expert no dia-a-dia partidário, mas é bem mais estratégico agir assim.

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Voltando a conversar um pouco mais sobre o recente artigo do ex-presidente Fernando Henrique percebe-se, hoje, que começam a surgir vozes contrárias levantando argumentos bem interessantes. Vejamos. O senador Aécio Neves, por exemplo, fala que é mais otimista e que em MG teve o apoio deste setor que Fernando Henrique estaria “dispensando”. E diz que o problema maior do partido é de conteúdo, coerência e clareza. O líder do PSDB na Câmara, Álvaro Dias falou, por sua vez, de uma necessária sensibilidade social às camadas mais pobres. E outros afirmam que essa dificuldade vem dos problemas de comunicação do partido.

Existem realmente coisas interessantes aqui. Mas, a meu ver, não podemos reduzir a questão a uma equação tão simplista. O mérito do artigo do ex-presidente está em chamar a atenção para que o PSDB, ao centrar seu olhar sobre as classes médias, assuma, de fato, um conteúdo programático coerente e claro (como deseja o senador Aécio) e, com isso, tenha maior facilidade de comunicação com o que seria uma base de sustentação político-eleitoral central, como desejam outros interlocutores. Esse é o mérito do artigo.

Não vejo, portanto, como reduzir a questão a ter que escolher entre uma classe ou outra. É fato que nenhum partido vai adotar uma postura classista, isso é improdutivo em tempos de democracia eleitoral (o PT já fez o caminho inverso), mas é fundamental que o partido tenha uma base de sustentação eleitoral mais nítida e que essa base não se revele somente em momentos de denúncia de escândalos de corrupção, como em períodos eleitorais.

Ora, vejo que Dilma está fazendo um caminho distinto ao proposta pelo ex-presidente Fernando Henrique. Mas, distinto em termos, pois se ela partiu de uma base (beneficiários do Bolsa Família) para buscar uma expansão em seu apoio para setores médios, o que o ex-presidente está propondo é exatamente que a oposição não fique aprisionada a uma disputa com o PT pelos setores de mais baixa renda. Mas, que tenha um discurso mais claro e coerente. Agora, quando leio o artigo penso que o ex-presidente escreveu pensando no Brasil, o que não exclui que lideranças, em determinadas regiões possam ter conquistado exatamente o inverso, como é o caso do senador Aécio.

Talvez o senador Aécio seja, de fato, uma liderança capaz de buscar esta maior amplitude de votos, bem acima de qualquer disposição sócio-econômica, como conseguiu em Minas, e quem sabe isso não possa ser testado nas eleições de 2014. Mas, isso não exclui o fato de a oposição buscar um discurso coerente e mais centrado não “em” uma classe, mas “a partir” de uma classe social cuja ressonância aos apelos da oposição é maior.

Observando de fora, o que vejo é que a única coisa que não pode acontecer é justamente deixar de acontecer o debate por se acreditar em soluções maniqueístas como, uma classe ou outra. Mas, pensar-se a partir” de uma base sócio-eleitoral já seria uma grande avanço. Seria um respeito à realidade.

Vejo, portanto, este artigo do ex-presidente como tendo o mérito maior de levantar o debate no seio da oposição e alertar, principalmente, para o fato de que, com Dilma, o PT busca recompor aquele espaço perdido quando o ex-presidente Lula, em meio às acusações do mensalão, foi desviando seu foco para os setores mais carentes.

Se a oposição quer avançar, o momento é o de aproveitar este clima de debate proporcionado, sem perder a chance de buscar uma maior clareza em seu discurso. Está claro, para todos, que o discurso da oposição está muito centrado nas questões de Estado e da economia. E isso não é problema algum, mas isso precisa ter um destino certo, e com comunicação mais acertada. E, a partir daí avançar. É exatamente assim que o PT, com a presidente Dilma está planejando. Embora eu avalie que a conjuntura, apesar dos avanços no estilo e postura da presidente Dilma, estejam muito mais com a oposição, justamente em função das dificuldades econômicas que podem estar por vir.

O ex-presidente Fernando Henrique faz um movimento muito interessante em lutar pelo seu legado, o das reformas do Estado e da estabilização econômica, base sobre a qual o país tem crescido. Dentro em pouco o PT assume este discurso definitivamente. Como se vê, em política, as ações as vezes perdem muito espaço para as palavras. É preciso, como sempre insisto, dar mais atenção a estas. E isto vem com coerência de discurso e disposição para o embate simbólico, mostrando as afinidades sociais e coerências discursivas.

O que as oposições não podem deixar acontecer, me parece, é deixar que este debate ocorra somente através da imprensa. Pois aí, mais uma vez, ficará a reboque de acusações e interpretações distorcidas e perderá todo o seu tempo, se defendendo, ou enfrentando a si mesma.

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Muito oportuna a divulgação de artigo do ex-presidente Fernando Henrique. A muito a oposição vem ressentindo-se de algo que tenha o poder de fomentar um debate interno e, nada melhor que algo que venha de um ex-presidente que carrega nas costas muita responsabilidade sobre o Brasil atual. O artigo, então, deve ter exatamente esse papel: o de fomentador de debates acerca dos rumos da oposição.

Com a ascensão de Dilma e os indícios mostrados acerca de um estilo próprio que a diferenciam de Lula parece que ficou mais fácil perceber que aquele monopólio discursivo exercido já não está assegurado no Governo Dilma.

A oposição não está morta. Mesmo no auge da popularidade do ex-presidente Lula, a oposição conseguiu um segundo turno e não permitiu que Dilma impusesse uma vitória esmagadora. Então, nada mais natural que, sair desse sentimento de “encolhimento” e partir para repensar sua trajetória futura. Pelo menos é dessa forma que vejo a necessidade da oposição agir, ou seja, buscando pensar modelos de ação, e discursivos, para se colocar como alternativa viável ao poder presidencial já em 2014.

Isso, de um lado, mantém a polaridade partidária fundamental, entre o PT e o PSDB e cria maiores possibilidades de alternância no poder para o que a saúde da democracia agradece. Antes de tudo, então, é isso que destaco de mais importante no artigo de Fernando Henrique: a oportunidade de colocar na mesa o projeto da oposição para 2014. Não tenho como esconder que muito me satisfaz essa possibilidade de revigoramento da oposição, justamente para se criar antídotos contra aventuras populistas de longo prazo.

Embora o artigo já tenha vazado para alguns sites, não vou discutí-lo na totalidade, mas em um aspecto central neste momento. Em sua coluna no Estadão, José Roberto de Toledo levantou uma questão interessante: a estratégia sugerida por Fernando Henrique, de não disputar o “povão” (“carente e pouco informado”) com o PT reforçaria a “demofobia” do PSDB?

Tenho muitas dúvidas, afinal, alguém em sã consciência acredita mesmo que um dia o PSDB, mantidas as condições atuais, vai se tornar um partido com discurso popularesco, ou mesmo, com capacidade de atuar e liderar movimentos sociais e sindicais?

Então, apesar do tom do discurso de Fernando Henrique ser “fronteiriço” ele não exclui o “povão” apenas diz que aquilo que dará a substância política do partido será sua identificação com as classes médias, no que, no meu entender, está absolutamente correto, pois ão setores que continuam desguarnecidos política e partidariamente e que, têm caminhado junto com a oposição mesmo sem que esta lhes tenha dirigido uma atenção especial.

É isto que vejo no discurso de Fernando Henrique, uma necessidade de maior alinhamento com um setor social vital para a oposição e que pode ser significativo para seus projetos de poder no futuro.

Não adianta ficar dizendo que, com isso, vão colar no PSDB o carimbo de “demófobo” (já fazem isto a quanto anos?). O que o PSDB e as oposições precisam é personalizar-se ainda mais e não farão isso sem “quebrar” alguns ovos. Não avançar sobre as classes médias com receio de um discurso que possa “afastar” o “povão”, isso sim é ficar em cima do muro e isso não tem sucesso algum.

Então, não vejo sinais de demofobia. Mas, se isso for levantado, poderá até surtir o efeito contrário, de reforçar a classe média em torno da oposição. Continuo insistindo, afinal já a duas eleições que as disputas presidenciais apresentam forte disputa sócio-econômica. Certamente, o PSDB não possui um discurso popularesco, mas isso não o torna “elitista” ou de “direita”, isso sim seria revelador de muita carência e pouca informação.

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