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Posts Tagged ‘História’

A alguns dias escrevi um artigo acerca da aspiração democrática presente nas recentes revoltas populares vistas no mundo árabe. Gostaria de fazer mais algumas considerações e levando em consideração, especificamente, o caso da Líbia. O que me motiva a escrever este novo artigo sobre o mesmo tema é a inquietação mostrada nas páginas da revista semanal Veja com um suposto risco “islâmico” que pode tornar o futuro da Líbia “sombrio”. O que isto significa?

É inegável que Kadafi é um ditador, e é inegável que foram muitos os passos que deu em direção à uma aproximação com o ocidente, assim como é inegável que a Líbia é um dos locais prediletos para a germinação de terroristas. Mas, qual a conexão entre tudo isto? Segundo Veja, Kadafi teria conseguido uma espécie de “apaziguamento” interno com o terrorismo e isso explicaria a “cautela” ocidental. Haveria um “medo” em se criar um novo Afeganistão, celeiro dos Talibãs.

É fato que boa parte da população quer a deposição de Kadafi, e eles devem ter suas razões. São muitas as vozes que se ouvem lá neste momento. Impossível dizer que se trata de uma só voz. A voz “democrática” é uma delas, talvez nem mesmo seja a majoritária. É uma questão de se investigar a quantas anda o “fator democrático” por lá. Por enquanto, entretanto, parece que a saída de Kadafi reúne a todas essas vozes. Entre elas há vozes do terrorismo islâmico? É certo que sim. Mas, então, como analisar a questão? Apoiar a permanência de Kadafi evitando-se que, no futuro, a situação piore?

Neste momento lembro de Agnes Heller e o que fala a respeito das “possibilidades históricas”. Ela nos diz, em “O Cotidiano e a História”, que são os homens, em suas relações sociais, que constroem finalidades a partir de causalidades, numa inter-relação permanente, o que faz com que nenhuma finalidade seja teleológica, ou seja, um fim último. Na história, praticamente só existem relações sociais e é através delas que se constrói a estrutura social. É neste processo, afirma Heller, que se constroem e se destroem valores, ou seja, aquilo que permite a manifestação das capacidades e possibilidades humanas.

Assim, o valor é tudo aquilo que “em qualquer das esferas e em relação com a situação de cada momento, contribua para o enriquecimento daquelas componentes essenciais; e pode-se considerar desvalor tudo o que direta ou indiretamente rebaixe ou inverta o nível alcançado no desenvolvimento de uma determinada componente essencial” (1). O valor, portanto, tem objetividade social, ou seja, ele se realiza como possibilidade nas esferas da vida social humana; é fruto da atividade dos homens.

É nesse sentido que a história será sempre uma história de colisão entre valores heterogêneos. É isso que permite à história estar sempre em movimento. Portanto, no desenrolar da história os valores não somente avançam, eles podem sofrer recuos, e sua realização nunca é absoluta, mas sempre relativa. Por exemplo, alguma revolução já se concretizou da forma como foi pensada? Mas, os valores permanecem sempre, então, como “possibilidades”. E é assim que vejo a questão do “fator democrático”, da “aspiração à democracia” que percebo em setores do mundo árabe atual.

Desse modo, se a aspiração à derrubada da ditadura de Kadafi é uma aspiração dominante como impedi-la em nome de um suposto futuro sombrio? O futuro ainda não se deu, a não ser enquanto “possibilidade”. Da mesma forma que a democracia, hoje, é uma aspiração, se Kadafi cair ela não se revelará de imediato, precisará ser construída. E é nesse processo de construção que os valores democráticos se confrontarão com outros valores na busca por tornarem-se possibilidades efetivas. Nesse sentido, mesmo sucumbindo após uma possível queda de Kadafi os valores democráticos terão se fortalecido neste momento e permanecerão sempre como uma possibilidade, ainda mais forte, no futuro. Eles não serão esquecidos para sempre. A democracia, então, será sempre uma possibilidade.

O que estamos falando é de algo da ordem da espontaneidade histórica, algo orgânico, que brota das relações sociais. Como impedir isto? Como bloquear? É um momento rico em possibilidades para os habitantes do mundo árabe. E sobre isto não cabe nenhuma interferência.

Tenho lido muitas coisas no sentido de que se trata de opositores que tentam sabotar o regime de Kadafi; que se trata de uma reação normal de um governo que se protege diante de uma oposição ensandecida; que o ocidente deve interferir para garantir a ordem interna seguindo interesses estratégicos; que é melhor ficar como estar que arriscar um futuro nas mãos de terroristas. Enfim, acho que falta humildade nas análises e respeito às possibilidades que conflitos sociais movidos pelos líbios pode trazer sociais

Como disse acima, nenhuma razão é suficientemente capaz de controlar e administrar o curso da história por muito tempo. Por que, então, tentar bloquear o curso da história por um suposto medo do futuro? As vozes que hoje aparecem reunidas sob o interesse na queda de Kadafi serão, no futuro próximo, divergentes… mas aí, já é outra história, outro campo de batalha. nenhuma razão é suficiente capaz de aparecer como o juiz da história, pois as “possibilidades” sempre estarão à disposição. Será que habitantes da Líbia possuem desejos tão diferentes dos nossos?

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(1) Heller, Agnes. Valor e História. In: O Cotidiano e a História, 6ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 2000, p. 5.

 

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