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Posts Tagged ‘Lulismo’

Nesta última quarta-feira a noite, sentado no sofá, mais ou menos por volta do horário do Jornal Nacional, me vejo surpreendido por uma propaganda institucional do PC do B. Não considerei supreendente o fato em si pois vez por outra há sempre uns instantes de propaganda partidária, mas foi o teor, o conteúdo desta propaganda partidária.

Num instante, me aparece o Netinho de Paula, membro do PC do B, numa propaganda institucional que, confesso, me deixou um pouco desconcertado, pelo menos por alguns instantes. Na aparição de Netinho, o partido o apresenta como alguém que veio de baixo e que conhece bem o povo e suas dificuldades e que nada melhor que uma pessoa assim para “cuidar” de nós.

Ora, ora, é justamente aí que reside meu desconcerto momentâneo. Quem imaginaria o PC do B, um partido classista, ter virado mais uma vítima desse neopopulismo que expande-se nos tempos atuais. Ora, ora, eu não quero que “cuidem” de mim. Não é esse o melhor discurso para a cidadania e para a emancipação do indivíduo. É um discurso paternalista, populista.

Bem, mas como eu disse, meu desconcerto foi momentâneo, logo lembrei que esse neopopulismo está mais do que fazendo escola, está fazendo seguidores, e todos com uma história triste para contar sobre a vida. lamentável para a democracia e para o que ainda resta de “esquerda”, pelo menos nas siglas.

Mas, nenhuma desilusão. Apenas constato um dado da realidade. Ou estou tão errado assim?

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Os 6 anos do mensalão, suas origens políticas e o modelo que o perpetua.

Dificil pensar e escrever sobre corrupção sem uma forte indignação. Mas, é bom pensar sobre o que existe de fragilidade política nas relações entre o Executivo e o Congresso para não se ficar acreditando que tudo é culpa da “mídia” ou de “políticos inescrupulosos”. Talvez nós também tenhamos alguma culpa no cartório. Clique no link acima para ler.

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Neste 21 de maio a coluna de Jose de Souza Martins (prof. emérito da USP) no Aliás discute a questão da língua brasileira que ocupou largos espaços de discussão nesta semana. Martins nos lembra que o português formal resultou de uma imposição colonial sobre o modo de falar dos brasileiros, o nheengatu, ainda no início do século XVIII. Mais tarde, no contexto das imigrações, foram proibidas línguas e dialetos originais. Tudo em prol da disseminação de uma língua nacional. Tudo isso sempre no contexto de autoritarismos políticos. Isso é inegável. Inegável também o fato de inúmeros sotaques terem sobrevivido na fala, mesmo que escrevamos o português da norma culta.

O que Martins nos chama a atenção, entretanto, é que, se de fato houve esta imposição histórica, e que haja legitimidade no reconhecimento da fala popular, a questão se baseia numa premissa falsa: “A classe dominante utiliza a norma culta principalmente por ter maior acesso à escolaridade e por seu uso ser um sinal de prestígio. Nesse sentido, é comum que se atribua um preconceito social em relação à variante popular, usada pela maioria dos brasileiros”.

Ora, nem uma coisa nem outra. Nem a classe dominante usa a língua culta nem os populares só falam a sua variante. Não há porque tratar a questão de forma maniqueísta então. Reduzir a uma questão de dominação de classe pode não explicar absolutamente nada.

A impressão que tenho é que está ocorrendo uma ideologização dessa questão, comportamento muito comum nos tempos do governo Lula, onde as variantes populares alcançaram um nível de legitimação sem paralelo e sempre calcadas na própria fala presidencial.

Ideologizar esta questão só servirá mesmo para constinuar-se a insistir na grande tese do governo Lula de que “existe uma elite preconceituosa no país”. Se existe? Claro que existe, mas que isso seja discutido e combatido não só com palavras de ordem e maniqueísmos e sim com largos programas educacionais neste país.

Aliás, quando foi a última vez que se discussão educação e cultura neste país? Vivemos sob o império da técnica e do consumo supérfluo, e isto só serve para alimentar um tipo de emancipação que é de ordem exclusivamente material. Qual o espaço para o crescimento educacional?

Será que ideologizar a questão da linguagem popular vai servir para justificar a ausência de debates, e ações concretas, em prol da educação? Parece, infelizmente, que sim.

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Blindagem de Palocci me lembra novembro de 2005.

Palocci não cansa de fornecer elementos que “ferem” a boa política, mas sempre foi um homem de “confiança” da oposição.

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O Primeiro de Maio está chegando e com ele uma velha discussão: o financiamento público de eventos sindicais. Ora, já a muito questionadas pela cobrança compulsória de impostos aos trabalhadores, agora o que se vê é o patrocínio com dinheiro público de ações festivas patrocinadas pelos sindicatos.

Algo está desvirtuado. Nascidas para dar voz e resistir em nome do trabalhador as centrais entraram em uma fase de acomodação ao “governismo irresistível“. Uso este termo para mostrar o quanto se abandonou princípios e comportamentos em prol de um “lugar ao sol”. Notícia hoje da Folha de S. Paulo revela que Petrobrás, BB, CEF e Eletrobrás vão financiar boa parte destes eventos.

Mas, a questão não pode ser avaliada somente quanto a esse aspecto. Não se trata de uma simples ajuda federal a eventos populares, isso é só parte do que realmente está acontecendo. Se olharmos com atenção veremos que, no aparelhamento estatal promovido por Lula, a presença de uma elite sindical é fabulosa.

O que é isso? De outro lado, vemos diversos movimentos sociais sendo bancados pelo Estado. O que é isso. Isso é o que já se chamou de “monopólio da política” levado a cabo pelo governo Lula, num amplo movimento de apropriação dos movimentos sociais e sindicais que, diante da expectativa de um “lugar ao sol” cederam sua voz ao Estado. Talvez seja mesmo a hora de se repensar a questão das cobranças de impostos sindicais. Até mesmo porque tudo se resumiu a sorteios e distribuição de bens.

É mais um dos “abandonos ideológicos” em favor de algo maior: o “governismo” que assume, desde os anos Lula uma faceta “irresistível”. Quem ainda quer definir-se como “oposição”? Ou, quem ainda consegue definir-se como “oposição”? Quem ainda está disposto a resistir e lutar por direitos? Quem está disposto a empunhar alguma bandeira? Afinal, cabem todos no Estado. Há lugar para todos. Pelo menos é isso que a voz governista diz.

Realmente ainda se está vivendo uma festa… a questão é o que fazer se a ressaca chegar.

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Em entrevista (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po0404201111.htm) o filósofo Marcos Nobre, da Universidade de Campinas, fala de uma “peemedebização” estaria em andamento no país, ou seja, algo que combina “adesismo” e “lógica do veto”, onde fazer política significa mais vetar que formular propostas.

O filósofo citou como exemplos desse processo a criação do PSD e a decisão do STF sobre a Lei da Ficha Limpa, tudo fruto de uma “cultura política peemedebizada”, uma cultura política que evita o confronto aberto e opera com uma lógica de veto… Não há um discurso positivo, não há uma tentativa de formar maioria e partir para o confronto. O que há é o veto e a tentativa de contornar os vetos. Há um bloqueio das discussões públicas que dissocia a política da sociedade. Trata-se de um modelo que se reforçou em muito após o mensalão.

Qual a relação com o mensalão? Com a crise, PT e PSDB perderam consistência após Lula ter se afastado do modelo polarizado em prol de um centro difuso. A diminuição do confronto permitiu que a lógica do peemedebismo retomasse um papel central. O fim da polarização é a vitória do peemedebismoO problema de Dilma é que ela recebeu um passivo político quase inadministrável… Ela recebeu uma quantidade enorme de acordos feitos por Lula, e todos muito generosos. São acordos com centrais sindicais, partidos, empresários, mercado etc. Mas Dilma não tem como manter todos. Há um limiteSe todo mundo está dentro e se todo mundo pode vetar propostas, o resultado é a paralisia.

E qual a solução para Dilma? Ela terá que mostrar que não há espaço para todo mundo e negociar acordos a um preço mais baixo. Dilma tem um “excesso de adesão” e isso é um fator limitador para os interesses de Kassab e do PSD, maior  expressão do peemedebismo. É a banalização da política. É um partido com discurso anódino, sem consistência, que gosta de se afirmar sem posição ideológica definida.

Uma boa questão, nesse momento, seria: Quais as condições e possibilidades de uma afirmação da oposição no cenário político? O primeiro passo é a constituição de um discurso. E isso exigirá uma leitura muito “fina” da realidade, pouco apegada aos fatos superficiais e episódicos e com mais capacidade de enxergar aquelas limitações que estão ocorrendo por baixo e que, mais à frente, serão a marca da gestão de Dilma. Se a oposição imagina que poderá ir se firmando em torno dos fatos criados pelo governo vai dar com os burros n’água. Uma leitura fina da realidade e um discurso consistente podem ser fundamentais para o médio prazo. 2012 está bem perto para já ir testando algo, mas para isso, é preciso começar. Não podemos esquecer que esse processo de peemedebização é fruto de um movimento feito por Lula no sentido do centro político, mas também é reflexo de uma descaracterização maciça do conteúdo da oposição no país.

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Últimas do Mensalão II

O mensalão não está morto, e também não está claro que tenha sido uma “farsa”, “folclore” ou uma “conspiração” das elites e da mídia. Hoje, na Folha.com e no Estadão.com, divulgou-se que a Polícia Federal, a pedido do ministro do STF Joaquim Barbosa, relator do julgamento do mensalão, confirma o esquema de desvio de dinheiro público (Fundo Visanet – Banco do Brasil) para a compra de apoio político para o governo no Congresso Nacional. A matéria, mais completa está sendo divulgada pela revista Época.

Não há dúvida que o relatório contraria toda a discursividade construída pelo ex-presidente Lula que, durante os cinco meses mais críticos da crise, entre julho e novembro de 2005, sempre defendeu a tese da existência de um “caixa dois” e que acusações de corrupção, formação de quadrilha e desvio de dinheiro público eram uma “farsa”, “folclore” e “conspiração” das elites e da mídia. O presidente ainda se sustentava, repetidamente, na tese de que a solução teria que vir exclusivamente do âmbito das investigações da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça como um todo, esquivando-se de qualquer envolvimento no caso e colocando-se “acima de qualquer suspeita”.

Certamente, o ex-presidente esperava que o tempo da justiça, moroso e sujeito a influências políticas, fizesse prevalecer o grande objetivo: o “esquecimento”, o “esvaziamento”, a diluição do interesse da opinião pública. Mas, o tema promete vir à tona novamente e será muito interessante ver como o ex-presidente vai se comportar discursivamente neste momento. Em um post anterior (https://estudosqualitativos.wordpress.com/wp-admin/post.php?post=619&action=edit) faço um resumo de um trabalho que concluí recentemente e que investigo justamente esta discursividade do ex-presidente quando do escândalo do mensalão. Nesse post também faço um associação entre a tese de “farsa” do ex-presidente e a notícia que o Estadão publicou na semana anterior dando conta da possibilidade de os crimes de corrupção e do mensalão prescreverem a partir de agosto deste ano. A divulgação do relatório recoloca a discussão e será muito interessante também acompanhar os rumos que o STF dará à questão, principalmente no que diz respeito às questões de prazo.

Já nas primeiras repercussões do fato, o deputado Candido Vacarezza (PT-SP) sustenta a tese do ex-presidente Lula quando diz que só houve, de fato, um erro confesso: o “caixa dois”. André Vargas, secretário de comunicação do PT é mais incisivo e diz que “o mensalão é tese da oposição, que a mídia e a Polícia Federal compraram. O judiciário é que vai dar a última palavra” (http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,vaccarezza-rechaca-nova-versao-sobre-mensalao,700901,0.htm). Sem dúvida, o que o secretário do PT faz é uma “atualização” da tese do ex-presidente Lula, que dizia que cabia à Polícia Federal também a investigação mais correta. Agora, entretanto, quando a Polícia Federal apresenta seu relatório ela é desqualificada. Ainda estamos em pleno conflito simbólico, discursivo.

Com a palavra o STF.

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É interessante como a recusa de um convite pode ser tão elucidativa. O ex-presidente Lula não compareceu ao almoço oferecido para o presidente norte-americano e se ouviu falar de todo tipo de justificativa por parte dele. Nenhuma fez sentido, talvez pela razão última ser de ordem muito pessoal. Quem sabe?

Enfim, o fato é que muito foi conversado. Dos demais ex-presidentes praticamente não se ouviu nada, mas de Fernando Henrique, que sempre foi ouvido com atenção, se ouviram comentários dando conta que estaria ocorrendo mais “civilidade” por parte do governo Dilma. Essa fala de Fernando Henrique foi muito significativa e tem um poder de síntese extraordinário (e de provocação, é claro!).

A “civilidade” é algo que sempre foi trazido à tona diante da necessidade de se estabelecer uma clara diferença em relação aos “bárbaros”. Então, o que o ex-presidente Fernando Henrique quis, de fato, dizer? Estabelecer uma diferença, não só uma simples diferença, mas uma diferença marcante e positiva em favor do governo Dilma, confrontando-o diretamente com o governo Lula. Isso é que chamo de uma “cutucada intelectual”.

O fato é que, acostumado a se utilizar da “comparação” para medir o seu governo em relação ao de Fernando Henrique, Lula está virando alvo de comparações, só que em posição diferente, ou seja, ele agora é o “passado”. Mas, insisto, qual a razão de Fernando Henrique fazer esta comparação com base na “civilidade” de Dilma?

Não deixa de existir aí aquilo que conhecemos bem como uma espécie de “reconhecimento” do governo Dilma. Como se o governo Dilma estivesse recebendo não só um agrado, mas um sinal claro de que “está indo bem”, algo como uma “aceitação intelectual”, uma “benção”. Este talvez sempre tenha sido o lado “arrogante” que sempre permeia o termo “civilidade”, agora colado à Dilma. Mas, tudo bem, Fernando Henrique é um intelectual e sabe muito bem como usar as palavras, principalmente aquelas que, de um lado, elogiam, de outro condenam, e de outro ainda, abençoam.

Mas, além deste significado de “aceitação” por parte da elite da sociedade, o termo civilidade inspira outras observações. Ele demarca, como disse, um território, agora entre Dilma e Lula. É justa essa demarcação? Acredito que sim. Embora com muito pouco tempo de governo já existem “sinais” de que o governo Dilma terá seu estilo próprio. E aí pode estar residindo a razão última para explicar toda essa diferença.

A última pesquisa Datafolha já mostrou que a popularidade de Dilma foge àquele simplismo eleitoral que marcou as duas últimas eleições presidenciais, ou seja, ela avança bem em todos os grupos sociais, quase de forma idêntica. Por outro lado, seu comportamento com relação à pressão dos sindicatos (quando do aumento do salário mínimo) e sua postura em recusar-se mediar a situação líbia (quando solicitada por Kadafi) foram sinais claros de “civilidade”. É neste sentido que Dilma vai se transformando em uma governante muito mais “palatável” para o conjunto da sociedade.

O que mudou, então? A postura de Dilma contrasta com o estilo “nós x eles” que dominou o governo Lula desde após o escândalo do mensalão. Foi a partir dali que, qualquer tentativa de um governo de consenso foi dissipada. Lula governou muito mais tempo com base no “nós x eles” e isso, inquestionavelmente deixou marcas, quase cicatrizes. Foi um discurso duro, de sobrevivência após o escândalo do mensalão, e que se revelou eleitoralmente fantástico para sua reeleição e para a eleição de Dilma.

A questão é que, pelo seu estilo, Dilma talvez não saiba continuar reproduzindo o “nós x eles”. Foi isso que Fernando Henrique quis dizer quando falou em “civilidade”. Há claras diferenças de estilo, pelo menos por enquanto. É como se Dilma não desse sinais de manter viva a dinâmica do “conflito” sempre bem utilizada por Lula.

Por seu lado, o ex-presidente Lula, dois dias depois, em jantar com a comunidade árabe, classificou como “hilariante” o comportamento da oposição em elogiar Dilma por ser “diferente” dele. Lula disse que se Obama falou bem do Brasil foi porque ele, Lula, pegou o país de um jeito e o transformou numa potência. E, aproveitou para negar qualquer continuidade em relação ao governo Fernando Henrique (ora, se a política econômica é a linha mestra de um governo, é claro que houve continuidade), além de dizer que Dilma sim é a sua continuidade.

Lula, no jantar, também criticou Obama, dizendo que a cara do terror não é a de um latino-americano, nem a de um árabe, e sim norte-americana. Mas, em seu discurso também disse que tinha muito orgulho em ter passado o governo a uma mulher que foi “perseguida e torturada” (onde está a mãe, doce e meiga, do PAC?), sinal que prestou bem atenção no discurso de Obama no Teatro Municipal e em seus elogios ao passado de Dilma.

Lula vai ficar assim por algum tempo. Ele vive um momento de encontrar o seu espaço. Seu novo espaço, que já não é mais o de presidente, nem de centro das atenções. É na busca por este novo lugar que ele procurará manter, de forma integral, a ideia de que seu governo “não acabou” e que Dilma é um prolongamento. Realmente, Lula não está trabalhando com a possibilidade de seu governo ter passado, de existir um “pós-Lula”, como o ex-ministro Malan já havia anunciado em artigo no estadão em 13/03/05.

É interessante, mas, para Lula, seu principal inimigo neste momento não é ninguém da oposição, mas o “estilo” de Dilma. Se ela continuar assim, atenua a dinâmica conflitiva embutida no discurso do “nós x eles” de Lula e transforma Lula em “passado”, e ele terá que aprender a viver como… Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique, representando o passado recente do Brasil e interferindo na politica sempre que necessário. Será que ele aguenta? Improvável. Ainda teremos bons capítulos nessa novela, cujo capítulo mais atual intitulou-se “civilidade”.

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Em artigo no Estadão deste domingo, no “espaço aberto” (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110313/not_imp691246,0.php), Pedro Malan comenta algumas coisas acerca do desconforto embutido na expressão “pós-Lula”. Ele nos diz que Lula não é mais presidente, certo? Ele nos diz que muitos petistas vêem na expressão uma ironia, uma insinuação de que o ex-presidente teria que “sair da cena política” e vestir seus pijamas (como muito já foi recomendado a Fernando Henrique). A expressão também é mal vista porque levaria a se excluir Lula das próximas disputas presidenciais. Por fim, a expressão é criticada por ser uma tentativa de “desconstruir” o governo Lula e trazer à tona possíveis legados problemáticos.

Malan continua e diz que Dilma começou seu governo marcando bem algumas posições: na liberdade de imprensa e na política externa, por exemplo. Mas, sua principal questão será mesmo lidar com uma pesada herança deixada por Lula: a vasta expansão dos gastos públicos. Não há nada de errado na análise do ex-ministro Malan e os passos de Dilma na condução do “gerenciamento” das contas públicas indicam que sua posição está correta. Mas, o que isso, de fato tem a ver com a rejeição do termo “pós-Lula”?

É certo que Lula não é mais presidente. Também é certo, entretanto, que ele não vestirá pijama algum e também é muito certo que Dilma estará sempre numa corda bamba, se equilibrando entre o necessário “gerenciamento” das contas e a preservação da herança do governo Lula. Nisso, ela terá que demonstrar competência. Mas, por que a impaciência com o termo “pós-Lula”. Ora, é evidente que, para muitos, o lulismo sofreu apenas uma “interrupção temporária”, uma espécie de concessão à democracia que ainda não permite 3 mandatos seguidos, pelo menos por aqui. Lula será sempre um fantasma pairando por sobre o governo Dilma.

No início, ela sentirá saudades dele, como já demonstrou. Mas, e mais à frente? Se tiver que tomar medidas mais fortes na economia o que dirá? Que diagnóstico fará? Que discursividade usará? Fará algum tipo de relação com o governo Lula? Dilma foi preparada e colocada no poder para ficar 4 anos, isso todos sabem. Por isso, o termo “pós-Lula” soa como algo incômodo, pois ele surge como uma revelação de desejos inconscientes e inconfessados. O lulismo ainda não é algo plenamente configurado na cena política brasileira, ainda está no nível do desejo. Com o tempo poderá vir à superfície e revelar-se. Por enquanto, é um mal-estar.

Achei o artigo de Malan instigante, primeiro porque o tema do lulismo me interessa, depois, porque é da ordem do cotidiano. É um debate que gostaria de ver na cena pública. Agora, só mais uma opinião pessoal. É claro que, quase sempre, o termo pós-Lula é usado em termos irônicos e digo que não gosto de usá-lo, não por não querer enfrentar uma desagradável herança do governo Lula, mas simplesmente porque acho que esse “pós” ainda não chegou, de fato. Lula está fora do governo, mas, como disse, paira no ar como o candidato natural do PT à eleição já em 2014. Ou Dilma foi colocada na presidência para ficar 8 anos?

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Interessante e oportuno o comentário do cientista político Rubens Figueiredo, diretor do Cepac-Pesquisa e Comunicação, na folha de S. Paulo de hoje (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po0503201106.htm). Interessante porque trás à tona um tema político sob o prisma do marketing e oportuno porque o assunto está na pauta dos jornalistas já a algumas semanas. E é natural que esteja na pauta afinal em início de governo é sempre corriqueiro buscar entender o “estilo” de um governante, sua forma de se comportar. Não seria diferente com Dilma, principalmente tendo como antecessor Lula, fortemente marcado por um estilo muito peculiar.

Segundo Figueiredo, Lula foi o “presidente-ídolo”, o “mandatário-showman”, o que explica cobrar R$ 200 mil para falar de si mesmo (ver post https://estudosqualitativos.wordpress.com/2011/03/03/a-palestra-motivacional-de-lula/). Dilma, para Figueiredo, está longe de ter o “charme comunicacional” de Lula, pois tem o de boa gestora e técnica. Parece cultivar a Presidência dos resultados, da racionalidade, da “casa em ordem”. E já conquistou parte da opinião pública mais escolarizada por sua discrição, pelo anúncio do corte de despesas e por declarações sobre o Irã que todo brasileiro democrata adorou ouvirO problema, para Dilma, é que existe um abismo cognitivo entre os eleitores mais escolarizados e a massa da população. O Brasil teria se acostumado a um presidente superexposto e que fala como o povo, o que teria levado a uma espécie de “humanização” do cargo presidencial. Talvez por isso, segundo Figueiredo, Dilma promova tentativas nesse sentido, como a ida no Programa Mais Voce, de Ana Maria Braga.

As observações são pertinentes e gostaria de fazer um comentário, ou dois. A atitude de Dilma seria propícia a um período “eleitoral” se ela realmente não estivesse sentindo a necessidade de maior exposição, ou pelos menos sendo pressionada a isso. Ainda há dúvidas se essa superexposição de Lula criou, de fato, uma “mania” no eleitorado, ou se vai ficar como algo, realmente, peculiar a ele, como algo que só ele mesmo possui e que destoa dos demais. Nesse sentido, Dilma teria amplas chances de sucesso em mostrar-se natural no seu próprio estilo, sem tentar imitar Lula e sem se deixar pressionar por assessores de marketing que, diante do sucesso do cliente passado insistem em repetir a fórmula, como se todo mundo fosse igual. Figueiredo faz o alerta de que nem tudo que soava natural e bonito em Lula terá o mesmo efeito com Dilma. Afinal, fenômenos não surgem todos os dias. E digo mais, se Dilma possui um perfil próprio, que seja autêntica e natural nele, afinal de contas, o país precisa mesmo ser gerenciado com maior eficácia e menos melodramas e aparições espetaculares… que digam as contas públicas, que precisam ser melhor cuidadas.

Acho que, chega de show. O caminho para o crescimento é mais sério que uma conversa de boteco, exige muito mais que medidas de distribuição de recursos sociais, e não pode prescindir de uma máquina estatal que seja, efetivamente, pública.

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