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Posts Tagged ‘Modernidade’

Hoje, 07/04, em sua coluna na Folha, Contardo Calligaris (“Relativismo, em termos”) nos fala sobre o obscurantismo dos tempos atuais e usa a religião como pano de fundo. Cita, por exemplo, a reação de homens-bomba que, na tentativa de punir o pastor americano que teria queimado o Alcorão, teriam matado muitos em um ato suicida. Seria necessário, segundo Calligaris, escandalizar alguns valores básicos de nossa modernidade, não que, necessariamente, a “rebeldia” seja um valor “natural” ou “mais evoluído” que a obediência às tradições.

Segundo Calligaris, nossos valores não são tão especiais a ponto de serem considerados, como Luc Ferry citou, os “mais humanos”. Tudo bem que eles podem ser valorizados e enaltecidos mas, daí a rejeitar sua crítica é uma distância muito grande. Por que insistir que os valores da modernidade são mais avançados? É preciso algum relativismo aí, afinal nossa cultura não é o suprassumo da essência humana, o que, entretanto, não significa jogá-la na lata do lixo.

Segundo Calligaris, o relativismo não significa que todos os valores se equivalem, mas que, para defender a cultura da gente, não é necessário nem é bom considerar que nossos valores sejam “naturais” ou “essenciais” e, portanto, estejam acima da diversidade dos tempos e dos costumes. Por que não é bom? Simples: quando consideramos nossos valores como “naturais”, paramos de enxergar que, como qualquer cultura, a nossa também é, antes de mais nada, um dispositivo de controle das mentes e dos corpos -ou seja, perdemos a capacidade de criticar nossa cultura.

Saímos, é certo, da ditadura das tradições, mas caímos na dos “sentimentos, da autenticidade procurada, da confissão escancarada”. Mas, isto não é o fim da história. A posição de Calligaris acerca do relativismo é interessante. Ao mesmo tempo que nos reconhecemos nessa cultura, “é a nossa cultura”, não podemos nos deixar levar por uma onipotência que não permitirá autocrítica. É preciso sim escandalizar um pouco mais certos valores. A discussão religiosa, por exemplo, beira o ridículo. Que a fé ocupe seu espaço no coração e na mente de muitos, mas nada mais que isso. Por vezes imagino que vivemos uma nova Inquisição, onde a intolerância só revela a fragilidade de diversas estruturas religiosas e seus mitos de origem. Então, o que de tão “moderno” há nisso? Talvez até estejamos às portas de uma nova era de “obrigações tradicionais”.

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