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Posts Tagged ‘Paranóia’

Em sua coluna semanal na Folha, sempre muito interessante, Calligaris trata (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3103201126.htm) da questão da “fabricação” da doença . O que instiga é o fato de sentirmos certo conforto em nos colocarmos como culpados de alguma desgraça que se abateu. Seria como admitir uma espécie de “responsabilidade” sobre a doença, e isso daria algum “sentido” a tudo.

Claro que o mais comum, diante de uma notícia ruim é procurar um agente causador externo, principalmente Deus ou o Diabo. São típicos delírios paranóicos, pois, em geral, quando temos intenções que preferimos esconder de nós mesmos, uma boa solução é atribui-las a outros… Desse ponto de vista, reconhecer que nós somos os primeiros culpados de nossa desventura seria um progresso. É aí que entra o “fabricar” a doença, que passa quer seja por uma poética do estouro (emoções contidas e silenciadas tiveram que se expressar e explodiram numa neoplasia), quer seja por uma poética da erosão (as mesmas emoções reprimidas foram atacando o corpo como a famosa gota que cava a pedra, não pela força, mas caindo repetidamente). Mas, na realidade, deixando de acusar Deus e acusando a si próprio não significa progresso algum.

De um lado, a posição de “vítima”, de outro, a de “culpado”. Em ambas, o sujeito está sempre no centro, em meio às luzes. Em suma, agimos e pensamos como se nosso sofrimento pudesse ser aliviado por uma compensação narcisista: a desventura é terrível, mas, ao menos, como vítima ou como culpado, sairei na foto. Não é uma consolação? Talvez. Mas é uma consolação custosa, porque, nessa foto em que sou vítima ou culpado, a desventura é o que me define, o que me resume. Mas, qual o espaço para o “mal aleatório”, o “mal sem sentido”? O mal que não faz parte de plano algum, e de nenhuma vontade externa ou mesmo nossa. Aceitar isso seria um bom teste de saúde, ao invés de se ficar acrescentando mil sentidos imaginários aos males reais, que já são suficientemente graves.

Um belo texto que nos faz pensar bastante sobre como e difícil escapar às duas maiores tentações: a culpabilização e a vitimização. São duas questões que permeiam nossas condutas no cotidiano, e sobre as quais precisamos, sempre, dedicar alguma atenção, pois o sentido de nossa vida não pode se constituir nesta polaridade. É preciso deixar um espaço ao acaso, ao imponderável, afinal… quem disse que controlamos tudo, ou que somos permanente objetos de controle? Aceitar a existência do acaso nos dá certa liberdade de movimento, sem precisarmos a todo instante do recurso ao delírio paranóico. Aceitar o acaso pode nos dar certo sentimento de impotência, mas se somos humanos nossa maior tarefa é justamente aprender a lidar com esta impotência que, se reconhecida, pode ser uma grande fonte de conforto e… criatividade.

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