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Posts Tagged ‘Psicose’

A primeira vista é por demais forte a imagem da errância no psicótico. Parece que é a errância que lhe define. Mas, por que não buscar um “fio da meada”? Nem a errância deixa de ser o que melhor lhe define, nem o fio da meada é uma impossibilidade, mas, não parece um paradoxo? Como buscar um fio da meada em uma situação de errância?

É muito comum a muitos analistas a atitude de tratar o psicótico com “doses” de racionalidade, explicando-lhe demais. Por que não deixar que ele fale, que ele explique? Só assim, me parece, há uma diminuição da sua resistência em entender a si mesmo. O fio da meada, então, está na postura do analista, no seu desejo.

Um desejo de escuta que só reforça a confiança por parte do paciente para que, a partir daí surjam possibilidades de se usar esse “fio” para se tentar costurar alguns dos muitos buracos abertos no paciente. É assim que se pode, através do nosso desejo, realizarmos a função de linha e agulha a tecer uma mínima rede no paciente. Uma rede que lhe possibilita, minimamente, uma integração.

A clínica do psicótico, sem dúvida alguma, não é nem um pouco fácil, coloca o analista diante de seus mais terríveis pesadelos. E é neste contexto que o desejo do analista tem que sobressair, como uma fortaleza onde o psicótico se apoiará.

O texto parece estar muito “profissional”, mas a lição que fica é a de que mesmo nos delírios mais fortes, nas esquizofrenias, nas paranóis, há uma escuta a ser posta em ação. Por que desistir destes pacientes “difíceis”? É preciso trazê-los para a rede da realidade, por mais que essa seja dolorosa, pois é aqui que ainda está a possibilidade de, mesmo em meio à dor, encontrar a calma, o sossêgo.

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Impossível não começar o sábado lendo a coluna quinzenal do professor Sérgio Telles no Estadão: “Oscar, Godard, Carnaval” (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110305/not_imp687940,0.php). Na urgência de dois temas relevantes, um que acabou de passar e outro que se apresenta, Telles, se situa em meio aos dois para nos fornecer algumas belas formas de olhar a realidade. Por exemplo:

1) Comenta sua preferência pelo “Cisne Negro” quando da premiação do Oscar e dá sentido ao filme quando explicita a “relação fusional” entre a bailarina e sua mãe, uma relação onde está excluída a presença do pai e, por isso mesmo, abre as portas para a psicose, algo bem demonstrado no filme. E nos relembra que, quando de sua morte no ápice da apresentação teatral o que ocorre é o “fracasso no êxito“, um conceito freudiano segundo o qual, para alguns, o êxito é vivido como um triunfo vingativo sobre antigos desafetos, o que gera culpa e temores de retaliação. Esta frase é brilhante e extremamente elucidativa acerca de muito o que vemos na clínica, no dia-a-dia. O triunfo de Nina sobre a mãe, portanto, gerava uma culpa inominável que só foi eliminada com a própria morte. Nesse sentido, e seguindo a trilha aberta pelo professor Telles, me arrisco a dizer que o seu êxito ao final (a libertação da relação fusional e da culpa) veio com o seu fracasso (morte na cena final);

2) A leitura que o professor Telles faz da indústria cinematográfica é muito lúcida. Reconhece de um lado o objetivo da lucratividade com filmes de entretenimento (o que, afinal, cria um refúgio temporário para o espectador), mas fornece, também, obras de fôlego como o Cisne Negro. Claro que nem tudo é como Godard, que nos tira da zona de conforto e nos causa estranheza;

3) Nos fala do carnaval como uma dessas datas fixas que acabam por nos fazer pensar acerca de nossa identidade e como mudamos. Nesse momento, o professor nos brinda com uma de suas lembranças de infância, em Fortaleza, onde a batida soturna e hipnótica me enchia de pavor toda vez que a ouvia ao longe, quebrando o silêncio da noite. Era o maracutu descendo a rua e anunciando a chegada do carnaval. Depois, as figuras com o rosto pintado de preto retinto, trajando vestidos brancos com longas saias rodadas, girando devagar ao som do ritmo grave e soleneAssustado, eu temia que aquelas figuras de cara preta saíssem da formação e me levassem definitivamente para o misterioso mundo que habitavam e do qual só saíam uma vez por ano… Voltávamos então para dentro de casa, enquanto o maracatu se dirigia para seu destino encantado. Aos poucos, o som ia se perdendo na noite escura, deixando um rastro de enigmática tristeza. Tudo voltava ao normal e eu ia para a cama, aliviado por ter escapado mais uma vezNas vésperas de mais um carnaval, tão distante das figuras do maracatu, percebo que persiste em mim, talvez até mais forte, o temor de ser arrebatado para os mundos sombrios dos quais o retorno é impossível.

Fantástico. Não só como escrita de uma memória, de uma lembrança, que, à medida que o tempo passa vai se tornando nossa mais fiel companheira e dando o real significado de nossa existência, mas também fantástico por nos restituir aquele mundo fantasioso que tanto cultivamos quando crianças e que, aos poucos vamos nos distanciando, para, mais tarde, nos encontrarmos novamente com ele, e percebermos que ele nunca nos deixou… Sempre esteve por perto, nos lembrando de nossos medos e desejos. Obrigado, professor Telles, de nos lembrar, em tão poucas linhas de sua coluna, de algumas coisas tão importantes.

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(filme) “O estranho em mim” e a questão do pós-parto.

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(filme) O “Cisne Negro” e a luta pela liberdade.

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